Postagens

Mostrando postagens com o rótulo Angela Fleury

SERÁ QUE A VIDA É SÓ ISSO?

Imagem
Angela Fleury Diálogo platônico em uma caverna contemporânea: --- Em uma habitação subterrânea em forma de caverna, com uma entrada aberta para a luz, estamos todos acorrentados bem no fundo, virados para uma parede, incapazes de voltar a cabeça. Você já percebeu isso? Com os pés e mãos amarrados, algemados nas pernas e nos pescoços, estamos incapazes de reagir, estamos todos imobilizados de tal maneira que só nos é permitido permanecer no mesmo lugar e olhar em uma única direção. Nada parece fazer sentido, mas mesmo assim há uma apatia geral. Parecemos estar definitivamente absortos pelo desconfortável espetáculo das falsas imagens, mas há de chegar uma hora em que tudo isso já não bastará mais. É certo, porém, que apesar de calados e encarcerados estão todos com o peito apertado, a beira de uma violenta e barulhenta explosão. Nada mais atual do que esta visão de Platão, para espelhar nosso tempo contemporâneo, você não acha? --- Você acredita mesmo que uma pessoa nessas ...

NAUFRAGAR É NÃO PARTIR

Angela Fleury Observar como estou resistindo ao outro e a mim mesmo, como lido com o fora e com o dentro. Perceber o quanto estou reagindo e como estou sempre em relação a alguma outra coisa diferente de mim mesmo. Considerar a experiência das associações dos conteúdos que circulam em volta de vários núcleos, em volta dos mais diferentes “eus”.   Refletir. O que estou escolhendo? A que deus dentro de mim estou atendendo? O que tiro da frente para não atrapalhar? O que acolho e o que desacato? A que devo atentar? O que devo velar? O que outro está preferindo? A quem o outro está escutando? Entender que as energias entre o eu e o outro quase sempre surgem frouxamente ligadas. Meditar sobre esse jogo de indeterminações de intensidades variadas que estão quase sempre em contradição. Aprender que este navegar nem sempre terá os ventos a favor. Aceitar que uns são tufões, que encrespam o mar e aumentam o tamanho das ondas e elevam o nível das águas, e que alguns outr...

OS PRIMEIROS MINUTOS

            Angela Fleury Talvez seja a hora mais difícil, uma incrível mistura de sentimentos indefinidos. Um momento de passagem de um mundo para o outro, que vai de uma misteriosa imprecisão, passando aos poucos para uma nebulosa penumbra até que se descortina em uma luz clara a qual os olhos nem sempre conseguem suportar. Tudo se passa em câmera lenta, reina um desconhecimento, uma desconfiança do que possa ou não vir a ser. Um tatear, como se eu estivesse entrando em um quarto escuro ou, ao contrário, saindo desconfiadamente na direção de uma forte luz. Cenários que vêm e fogem da mente, imagens desconexas que escapam e que insistem em reaparecer que se misturam e se embaralham que são turvas, que se ocultam e se mostram sem que eu tenha o tempo para lhes dar um sentido.  Estou em pleno espaço entre, nem de um lado nem do outro, em pleno transcurso. Aos poucos, bem aos poucos, mas ainda de maneira desconcertada sinto que vou saindo de...

AS ÁRVORES CUIDAM UMAS DAS OUTRAS

Angela Fleury  Não há como aceitar esse mundo que nos vendem, no qual tudo está aí, totalmente presente, inequívoco, às claras, um caminho solar, já averiguado, definido e acolhido. Verdades cientificamente incontestáveis? Um mundo exato, preciso, comprovado racionalmente? Não! O estar das coisas não se encontra inteiramente a vista, há algo que se retrai e se oculta. Há muitas possibilidades que ainda não conhecemos. É preciso converter, diminuir o ritmo, sentir a batida do coração, dar meia volta volver, procurar um atalho alternativo, sem medo de enfrentar um novo roteiro desconhecido. Prestar atenção àquilo que silencia procurar ouvir o remanso, a quietude, para deixar vir à tona o verdadeiro sentir das coisas. É preciso afinar os ouvidos e considerar as forças originais que nos habitam porque a qualquer momento poderemos ser assaltados por elas e felizmente e finalmente achar a rota certa. Para o engenheiro florestal alemão, Peter Wohlleben, em seu trabalho “A vida s...

ESSA ESTRANHA MANIA DE SER DOIS

Vaneska Mello, r eescrito por Angela Fleury Das coisas que nos ocupamos entre o nascer e o sucumbir sozinhos está o delírio pelo fim do exílio. Mãos dadas, vidas coladas, desejos, sonhos, simbiose de ideias e de pensamentos, ausência de segredos. Não vivo sem você, sem você nada faz sentido. Parece ser o que buscamos em matéria de afeto. Parece, até percebermos a ausência de nós mesmos na vida a dois que construímos. Sentir que somos dois nos dá a ilusão de que estamos a salvo do desabrigo da alma. Mãos atadas, vidas cerceadas, desejos, sonhos, ideais e pensamentos que não se sabe ao certo de quem são. Ausência de privacidade. De repente, a história de amor consumiu a identidade de dois seres antes completos. Ao faltar o outro, só se é metade de alguém, talvez ninguém. Não é regra geral dos afetos, há pessoas que os vivem de outra forma mais leve. Há indivíduos que conseguem enxergar no objeto de sua afeição, o que ele é - outro ser. Humano, falível, com seus encantos...

HÁ UMA INTERDIÇÃO

Angela Fleury É preciso encarar o bicho, não vamos controlar tudo, não vai dar. É preciso encarar o desamparo, o terror e entender que a vida que nos cerca é terrível. É preciso encarar o bicho. Estamos desamparados dentro de um barco no meio de um mar revolto. E o pior, somos por dentro um mar revolto. Estamos perdidos e sozinhos numa noite escura. O chão se move, as paredes balançam e o teto está nervoso. Não há como fixar, estabilizar, estancar, voltar atrás e suspender a viagem. Não quero mais, mudei de ideia, não quero mais, não, não vai ter jeito, é preciso encarar o bicho.  Mas, tudo bem. Não é preciso mesmo dominar as coisas da vida, não é preciso voar até Júpiter, roubar os anéis de Saturno, descobrir outras galáxias, saber de onde viemos e para onde vamos, não é preciso viver 200 anos, desvendar a vida após a morte, ir e voltar pra contar, descobrir as manhas do cosmo, não, não é possível. Não temos como negar, há uma interdição.  Há um limite a partir ...

ALTO MAR

Angela Fleury O que vivemos parece ser um teatro de infindáveis disputas, desobediências supremas, desafios e impedimentos. Afastamentos e aproximações suspeitas, operações deflagradas, soluções impossíveis, mobilizações e imobilizações, manifestações divergentes, substituições instáveis, ressalvas impróprias, adesões e decisões ocultas, perdas imediatas, deboches técnicos e institucionais. Paira no ar uma atmosfera poluída pelo descaramento, pela instabilidade e pela a mais federal incerteza. Montou-se um balcão, afirma a delação. Será que poderíamos pedir socorro à poesia? Ou seria à filosofia? Ou essa seria uma esperança ingênua? Qual seria o novo critério de conhecimento? Como poderíamos descobrir um novo modo de ação? Afastamento, silêncio, introspecção? Vivemos enormes rupturas, universais e pessoais, parece não haver no momento espaço para reconciliações poéticas. Até aonde o farol pode enxergar nada se vê. Alto mar, nenhuma terra à vista. Temperaturas altas e baixas...

DHARAMSALA

Angela Fleury A primeira impressão foi de deslumbramento. Eu havia imaginado uma coisa e tudo estava indo completamente além do imaginável. Hesitei entre tentar entender o que estava acontecendo ou me entregar e admitir a impossibilidade de uma compreensão daquela experiência. Sons de violino e piano seriam as perfeitas trilhas musicais de fundo daquela paisagem, tal era a grandiosidade de sua beleza. E eu os ouvia! Estaria indo encontrar os deuses? Ou estaria indo ao encontro das estrelas? Era meu primeiro contato com o teto do mundo, o Himalaia, onde muitos acreditam que os deuses e os mortais se encontram. Era um lugar de muita sabedoria e isto estava bem evidente na beleza de sua natureza branca e na profundidade de seus vales verdes e vermelhos. Quando todos gritaram, foi como se eu tivesse acordado de um sonho. O ônibus que nos levava montanha acima, apinhada de gente e de carga tinha derrapado no gelo fino e ali não tínhamos mesmo espaço de manobra. Voltei à realida...

ALGUMAS REFLEXÕES POÉTICAS

Angela Fleury  Hoje sou assim, amanhã já não mais. Sinto, mas já não sinto mais, gosto e desgosto, quero e já não quero mais! Silenciosamente pensamentos me confundem incessantemente, minhas próprias atitudes me surpreendem, convivo com conflitos intermináveis, ora é assim, ora é assado. Verdadeiros e heroicos combates entre domínios opostos. A vida, afirma sabiamente o poeta, existe através de contradições, através de uma constante tensão. Afaste-se para que possa se aproximar, mova-se para o oposto, para então, poder retornar. A vida persiste através de um movimento constante, qualquer coisa fixa e estabelecida está morta, estar vivo é mover-se entre os opostos, tudo está crescendo, movendo-se, transformando-se, num eterno devir.  Se observarmos a vida, a nossa volta, veremos que há contradições em todo lugar e talvez não haja nada de errado na contradição, ela às vezes pode parecer insuportável porque vai de encontro à nossa mente lógica e racional, mas...

SILÊNCIO NA MULTIDÃO

Angela Fleury Há um silêncio no ar. Por toda parte, um silêncio que parece encarnar o espírito contemporâneo. Um sentimento de ruína, de fragmentação, de dúvida. Um sentimento de passagem, só não sei de onde para onde. Não há mais transmissões de experiências, estou sozinha, lendo um romance, no sofá da minha sala de estar.  Indivíduo urbano e solitário, impossibilitado de falar sobre a catástrofe. Incapacitado de transmitir ao outro a sua experiência. Atrofia da narrativa, desencontro e afastamento. Sem palavras, muda, assim como os combatentes que voltam do campo de batalha. Não há mais troca de experiências boca a boca. Quem encontra ainda pessoas que saibam contar estórias como elas devem ser contadas? Aonde estão os ouvintes? Que moribundos dizem hoje palavras tão duráveis que possam ser transmitidas como um anel, de geração em geração? Quem é ajudado hoje por um provérbio oportuno? Quem tentará, sequer, lidar com a juventude invocando sua experiência? Tudo mud...

AGORA É QUE SÃO ELAS

Angela Fleury Nem sempre é fácil escrever. Mil ideias, mas todas se misturam, passam de um lado para o outro embaralhando a cabeça. É preciso focar, estar atento e forte, voltar para si mesmo. O que você estava mesmo pensando? O que você estava mesmo querendo dizer? Voltar e sair de si mesmo, voltar e sair, ir e voltar... Vamos lá. Foca. O dia nem bem começou e já está prestes a acabar. São 6 horas já? Não acredito! O dia já acabou e eu não fiz nem metade do que eu estava querendo fazer. O tempo voa. Qual era mesmo o tema desse texto hoje? Política nacional, a meta fiscal, o novo feminismo, o terrorismo internacional, a questão do meio ambiente, o encontro de 150 lideres mundiais em Paris para discutir o aquecimento global? Nem sempre é fácil escrever, nem sempre é fácil viver. Não! Para com isso, você não tem do que reclamar. Olha em volta e reconheça, aprecie e agradeça. Como diz aquele ator argentino maravilhoso, você toma um banho quente por dia, abre a torneira...

INTEMPÉRIES

Angela Fleury              Uma devastadora guerra civil na Síria parece estar cada dia mais longe de uma solução pacífica. Uma grande nuvem de incertezas paira sobre o céu do Mediterrâneo e seus arredores. A fragmentação do país é evidente. O mapa da guerra descreve a intensificação dos conflitos. A seita alauita de Bashar al-Assad controla a capital Damasco e a Costa do Mediterrâneo, o Estado Islâmico domina várias áreas sunitas ao Leste, outro grupos de rebeldes sunitas controlam áreas no Norte e no Sul e os drusos que até então prestavam lealdade ao governo já começam a pensar em autonomia. O país segue em direção à fragmentação e os efeitos esperados da guerra civil são preocupantes.              Não bastasse esse quadro dramático, que se apresenta por si só trágico e inquietante, tivemos essa semana um agravamento das ações russas no país, intensificado c...

IDENTIDADE

Angela Fleury Nossa identidade, quem somos, do que gostamos e qual é o nosso lugar nesse mundo, não diz respeito somente a nós mesmos. Ela é parte fundamental de nossa interação com o mundo e orienta a maneira como as outras pessoas se comportam diante de nós. O modo como nos apresentamos e nos expressamos reforça nossa identidade e determina como seremos tratados. Aquilo que, por exemplo, inicialmente pode parecer uma decisão simples e corriqueira, como a escolha de como iremos nos vestir, termina por determinar se seremos ou não aceitos em diferentes grupos sociais, se conseguiremos esse ou aquele emprego, se somos merecedores de promoção e respeito ou de desprezo. Nossas decisões e escolhas terão consequências psicológicas, sociais, políticas e econômicas. Uma simples peça do vestuário pode significar respeito para uns e opressão para outros. É o caso do véu islâmico, conhecido como Hijab, que usado pelas mulheres muçulmanas no Ocidente, como parte da fé Islâmica, vem se ...

ATENÇÃO

Angela Fleury Há tempos atrás consultei uma cartomante, dessas que colocam cartas de tarô em cima de uma mesa, ela de um lado, eu do outro. A expectativa era que ela descrevesse a minha personalidade, minha vida passada e presente e previsse o futuro. Que me trouxesse soluções para determinadas situações nas quais tinha dúvidas de como agir. Que dissesse o que estava por vir. Mas as cartas não tinham respostas prontas como eu desejava, mas sim outro olhar para as indagações. As cartas não respondiam às perguntas, elas indicavam uma direção: Dê ouvidos à voz interior para saber o rumo a ser tomado, mantenha desbloqueados os caminhos que levam à intuição.  Sempre seguindo as instruções da cartomante, repetidas vezes, embaralhei as cartas, as cortei ao meio e coloquei os dois montes sobre a mesa. Muito séria e concentrada a vidente dispunha as cartas cuidadosamente uma ao lado da outra e as imagens, claras e estimulantes com suas cores vibrantes, iam me conectando com o que q...

OLHARES MEIGOS E PROFUNDOS

Angela Fleury Aquela visão nunca mais sairia da minha cabeça.  Uma pequena cidade avermelhada de ruas de terra batida, com construções de argila, de um só andar, sem telhado aparente e com amplas aberturas que me confundiam. Seriam portas ou imensas janelas? Figuras bíblicas caminhavam sem pressa pelas ruas empoeiradas, com suas longas barbas escuras e turbantes que davam mil e cuidadosas voltas. Calças largas, de ganchos enormes, longas batas. Era novembro, fazia frio e todos estavam envoltos em mantas e cachecóis de lã. Eram muitos panos que se sobrepunham em total harmonia estética. Tudo parecia fluir dentro de uma energia leve, primitiva e única. Homens altivos que expressavam orgulho e doçura em seus grandes olhos negros.  Nunca mais iria esquecer aqueles olhares meigos e profundos nas ruas de Herat.  Ao entrar no Afeganistão no ano de 1977 toda a infraestrutura moderna ocidental, que eu conhecia, parecia não existir naquele lugar. Eu e meu mundo ...

SAUDADES

Angela Fleury O mundo está mudado. Não tenho muita certeza, mas tenho o sentimento de que em algum lugar no passado, tudo já foi mais fácil, mais previsível, mais fresco, mais calmo e mais lento. Vejo que hoje, o respeito, a compreensão, a gentileza, a compaixão, a esperança, a leveza são muitas vezes esquecidos. As pessoas são valorizadas pelo que têm e não pelo que são. Tudo é descartável, os carros, as roupas e os eletrodomésticos são feitos para serem trocados. Os namoros e os casamentos não são mais estáveis. As mulheres e os homens buscam uma difícil reinvenção de si mesmos. Não há mais um modelo a ser seguido, cada um, individualmente, tem que criar a sua maneira de viver e de ser feliz. Temos que conviver com nossas diferenças, nunca fomos tão diferentes. Não entendemos mais da previsão do tempo. O verão fica mais quente a cada ano e já não conseguimos olhar para o céu e acertar que roupa usar. Antes, se a temperatura aumentasse e o céu se enchesse de nuvens baixas podíam...