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Mostrando postagens com o rótulo Jurandir de Oliveira

O BRILHO DA ROSA

Jurandir de Oliveira Foi nosso grande poeta Vinicius de Morais quem melhor definiu o que é um auto engano quando criou aquela famosa frase, carregada de cínico pragmatismo: "Que o amor seja eterno enquanto dure"! Isto porque a única maneira de viver um amor é vivendo-o intensamente, sem pensar que ele pode terminar ao virarmos a primeira esquina. Mas quase nunca perdemos a noção total da realidade, apenas nos deixamos embriagar por uma doce ilusão que, ao final de contas, faz bem para a pele e para a alma. Deliberadamente nos auto enganamos.  Recentemente, quando indaguei sobre a tal mulher que, segundo uns amigos, já havia morrido, me contaram uma história. -Rosa? Ah...Rosa era super legal. Pena que você não a conheceu! Era dessas mulheres alegres que chegam à terceira idade cheias de juventude, animadas, festeiras. Conheceu um rapaz que era bem mais jovem que ela. Os dois pareciam feitos um para o outro, todos percebiam a adoração de Antônio quando estavam junt...

QUO VADIS?

Jurandir  Eram as duas horas da manhã e eu ia caminhando por Waikiki, em direção ao hotel, quando vi esse personagem em plena rua fazendo gestos que mais pareciam uma dança inventada e coreografada especialmente para ele. Era como se estivesse escutando música celestial mas definitivamente não levava fones de ouvido. O mais curioso era como estava vestido. Descalço, usava um pano estampado muito colorido enrolado no corpo e atado com nós, como se fosse uma longa túnica. Tinha o cabelo castanho comprido, desgrenhado e uma barba não muito espessa. Parecia como teletransportado do filme Godspell... Umas mulheres negras, bastante gordas, sentadas do outro lado da rua começaram a rir descaradamente e a gritar elevando os braços de forma jocosa: Aleluia!! Aleluia!!!. Ele parou por um segundo, respondeu com um sorriso e seguiu em sua coreografia. Já nesse momento eu havia decidido segui-lo pois a minha curiosidade era grande. Minha percepção dizia que ele não era nem louco...

MÃE

Jurandyr de Oliveira Então ele a despertou gentilmente: -Mãe, mãe, te amo muito minha mãe. Já estou indo. E deu-lhe dois beijos nos cabelos brancos . Ela abriu os olhos e com uma expressão meio atordoada falou: Espera,...eu tenho que lhe falar algo. -O que foi mãe ? Perguntou ele curioso, porque pressentiu que se tratava de um sonho. -As crianças, onde estão as crianças? -As crianças? Ele retrucou baixinho. -Sim, as crianças... Nós não estamos juntos?  Pouco a pouco ela percebeu a própria confusão. Talvez o tivesse confundido com seu pai... -Mãe, fica com Deus. Eu estou voltando para o Panamá. Falou como tratando de situar-la um pouco. -Ahhh filho, você esta voltando... E repetindo a frase que repetia sempre como se fosse ao menos uma certeza registrada na mente, a única ancora entre tantos fragmentos dispersos. -Vem filho, ficar um tempo comigo!... Quando você volta? Vai com Deus e não demore muito para voltar. Te amo muito!... -Vai mã...

Jurandyr de Oliveira Hoje entendo como minha progenitora teve que ser cuidadosa, escolhendo para depositar seus ovos em lugar pouco acessível - debaixo das folhas! O primeiro sentimento que lembro como parte da minha efêmera existência foi o de despertar com uma fome insaciável. Meu corpo movendo-se num ritmo cadenciado sem nenhum esforço . A mente vazia, só o resplendor do verde comigo, se fundindo. E a umidade de algumas gotas de sereno, sobre o aveludado das folhas. São poucas as memórias daquela época.  Movendo-me, descobri que apesar de ter adquirido aos poucos, tamanho e algum peso, podia caminhar em cima ou embaixo das folhas, sem cair. Com o tempo, era tanta a habilidade , que podia estar com somente parte do corpo pegado às folhagens e o resto ao ar.  Podia enroscar-me deliciosamente ou balançar-me. Em segundos, o mundo virava literalmente de cabeça para baixo e um azul brilhante invadia o meu campo de visão.  Os delicados fios que sou capaz de...

LOUBOUTIN

Jurandir de Oliveira A culpa foi dela. Da chuva! Entrei por 5 minutos e quando sai, aquele temporal.Aqui no Panamá é assim. Seis meses de sol e seis meses de chuva. Estávamos nos seis de chuva,é verdade, mas o dia andava tão bonito que nem desconfiei, não como as outras vêzes que olho pro céu e aquelas nuvens negras, rondando. Fui só para comprar um chiclete, detesto almoçar e ficar com aquele gosto de comida na boca.Entrei na drugstore, só pra comprar o maldito chiclete. Eu já a tinha visto na fila. Impossivel que não, sou do tipo de casado que não busca encrenca mas   quando ela saiu da fila, movendo-se daquele jeito, só um cego não olharia, cego ou coisa pior. Paguei com os 2 quarters que tinha no bolso, rapidinho,querendo voltar de uma vez pro escritório e só então   percebi aquela algazarra   de gente entrando toda molhada. Havia um temporal la fora. Já a rua estava alagada. Sai e fiquei alí, debaixo da marquise da Arrocha olhando aquele caos. Chu...

CRIME SEM CASTIGO

Jurandir de Oliveira Objetos muitas vezes inesperados adquirem importância em nossas vidas para com o tempo acabarem esquecidos no fundo de um armário. Não quero entrar no porquê, mas houve uma época em que eu estava decidido a conseguir um molde para confeccionar chapéus. Eram os anos 80 e as poucas chapelarias que não haviam fechado, emanavam, faz muito, aquele ar de anacronismo e de abandono. O fato que eu quero narrar aconteceu num lugar assim. Uma lojinha no Largo do Machado, Rio de Janeiro. Olhando pela vitrina empoeirada, via-se em primeiro plano, alguns modelos de chapéus antiquados, em cores que teríamos que imaginar, subtraindo o efeito do tempo e do sol implacável. Nas prateleiras internas da loja, uma camada suave de poeira, dava a alguns modelos, vistos desde onde eu estava, uma aparência aveludada. Outros elementos como uns poucos bibelôs , um espelho bisotado e flores de seda, compunham esse melancólico acervo. Desviando o olhar para o fundo da loja, numa...

MERGULHO NO MAR

Jurandir de Oliveira Busco um papel e um lápis e começo a fazer algumas anotações . No princípio o tema não me atraiu muito, estive a ponto de passar a vez. Então tive uma ideia:incluir uma cartomante em um texto que escrevi tempos atrás sobre um crime. Seria uma solução perfeita se eu não tivesse tão boa memória. Fui buscar entre meus velhos e empoeirados livros e já quando ia desistindo de procurar encontrei o volume de contos de Oscar Wilde e entre eles O Crime de Lord Arthur Savile. Me sento ai mesmo em um puff ao lado da estante e releio rapidamente o têxto. Minha memória não é tão boa como pensei, pois se trata de um quiromante e não de uma cartomante. Foi então devolvendo o livro ao seu lugar que me lembrei de Macabéa. Ahh Macabéa Macabéa dizia a voz sonora de Fernanda Montenegro transmutada em cartomante no filme a Hora da Estrela: Macabéa, Macabeazinha...  Atrasado, vou para o trabalho com essa imagem e a do carro fulgurante que no desfecho terminava com a vida...

ENTRE AS NUVENS

Jurandir de Oliveira -Olha lá Maria, como nosso menino tá parecido com o pai! A mulher parou de limpar o peixe e enxugando as mãos no avental, olhava para o filho de oito anos jogado no chão de cimento, brincando com um caminhãozinho de plástico. A casa atestava simplicidade por donde quer que se olhasse. - É verdade homem! E dirigindo-se ao filho: Jesus! Tu vai ser pedreiro como teu pai?  - Não mãe, não quero! Disse o menino sem desviar a atenção do carrinho. Agora esvaziava o caminhão cheio de pedrinhas no chão da casa. - Então vai ser o que? Diz o pai brincando: engenheiro? Maria, esse borra de tacho saiu mesmo besta! Não quer ser pedreiro como o pai, quer ser bacana o moleque. - Pai, eu quero ser mediqueiro!  João e Maria caíram na risada. - Mediqueiro! Haha Jumento! Se fala : mé-di-co, disse o pai, mé-di-co. Jesus, meio sem graça, ajeitou no nariz os óculos consertados com durex em um dos cantos de uma lente. -Agora fio, vai ban...

A MÃO DE DEUS

Jurandir de Oliveira A translúcida folha flutua no lago bailando uma canção para a lua.  Flutua…e a brisa caprichosa, encrespa suas bordas tênues. A folha rodopia e todo o bosque parece envolvido nesse tema. De repente, pequenas gotas de chuva tornam o baile mais intenso. E o reflexo da lua se contorce por instantes, para logo voltar à sua forma original. Uma formiga, ilhada, mas sem sequer mudar de ritmo, se move na direção de outra folha, quando essas se tocam pelo efeito da brisa. Parece adivinhar cada passo do universo. Menos o do homem que, interpondo um dedo entre uma folha e outra, a faz mergulhar na escuridão do lago. Na luta da formiga por sobreviver, esperneia, buscando alguma folha onde agarrar-se, enquanto o homem divertido, a vê afundar pouco a pouco.