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Mostrando postagens com o rótulo Vaneska Mello

Ela e Arnaldo

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Vaneska M. Terça-feira normal, de uma semana comum, de um mês ordinário. Ela pega o ônibus de sempre, destino: trabalho. Não usual mesmo só o recém adquirido hábito de acompanhar-se   do Arnaldo pra espantar o tédio do viagem.   Arnaldo, recém-organizado, na playlist do celular tinindo de novo. Ele canta baixo pra ela, num sonzinho quase de vitrola: _ “ela quer viver sozinha sem a sua companhia e você ainda quer essa mulher...” Surge talvez um saxofone, o som aumenta de repente. Ela e Arnaldo vão começar o animado bate-papo! Aquele instrumento de comunicação, porém, não se restringe à prosa com Arnaldo. O telefone toca. Toca a música. Como atender se Arnaldo ainda tá ali? Num ímpeto desastrado, saca os fones do aparelho. O som íntimo e reservado toma conta do ônibus inteiro: ­_”ela goza com o sabonete não precisa de você ela goza com a mão não precisa do seu pau” _Porra, Arnaldo! Canta baixo! Para de cantar! Não me core de vergonha. Como ...

A DESEQUILIBRISTA

Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto Esse eterno levantar-se depois de cada queda Essa busca de equilíbrio no fio da navalha Essa terrível coragem diante do grande medo, e esse medo Infantil de ter pequenas coragens. O Haver Vinicius de Moraes Conselhos, forças, ameaças. O que o mundo espera da gente é equilíbrio. Em nome de uma vida mais serena, uma boa dose de sensatez, relações harmoniosas, paz de espírito. Desafortunadamente o que tenho a oferecer ao mundo é minha infinita incapacidade de me meter em medidas, encaixar em padrões, me aprisionar em parâmetros. Equilíbrio pressupõe um sistema de forças que se compensam e se anulam reciprocamente. Não vejo como isso possa ser algo sempre bom. Nesse constante anular-se, gente como eu só vê um vazio enorme. Falta-nos o discernimento para entender sua grandeza, qualquer que seja. Equilíbrio também é estado daquilo que se mantém sem alterações, constante. Nada mais assustador para alma...

A PRIMEIRA VEZ QUE EU VI O MAR

Vaneska M. A primeira vez que eu vi o mar, possivelmente não era a primeira vez. Mas não importa se era a terceira ou quarta, ou se era sexta feira.  Lembro que o mar apareceu após uma curva - e o mundo todo desligou: o maldito rádio do carro que tocava umas músicas que me davam vontade de chorar, o barulho da criançada, os resmungos do meu pai, o mau humor da minha mãe. Todos emudecidos pelo mar, pelo mar que não tinha fim. Passado o deslumbramento, procurei entender por que não parávamos logo ali e descíamos o morro para tomar banho de mar. Foi aí que meu pai explicou que aquele ainda não era o mar em que criança podia tomar banho. É que existia um outro mar, que era chamado “lagoa”, diferente daquele, que tinha ondas.  Minha cabeça, livre como só a das crianças são, começou a ilustrar toda aquela explanação acerca do mar. Eram mares enfileirados, uns que eu só podia ver e outro em que eu poderia nadar. Que grande piada, eu nunca aprendi a nadar! A part...

PRA GENTE, FINALMENTE, CRESCER

Vaneska M. É preciso subir ladeiras no escuro. Descer ladeiras no escuro. É preciso subir e descer. Abandonar vertigens. Não ter medo do tempo. Para o que passou, gratidão. Para o que virá, entusiasmo. Para o que não para de correr, calma. É preciso encarar escolhas. Errar muito e enormemente. Acertar em silêncio. Absolver-se sempre. É preciso reconciliação: com nossos corpos, dores, fragilidades.  É preciso encerrar as buscas. Paralisar as escavações. Não tem nada no fim. Só mesmo caminhos e neles a plenitude. Total atenção aos caminhos. Sim, é preciso plantar árvores, flores, temperos. É preciso colher.  Aceitar quem são ou foram nossos pais e irmãos, ainda que para tanto seja necessária compaixão. Compreender que para muitos somos só necessários. Não martirizar-se por isso. Não duvidar de sentimentos genuínos, porque para tantos outros bastará o que somos. É preciso amar de novo, o novo. Reamar o mesmo amor. Desatar nós. É preciso, com...

O HORROR DE CONHECER

Vaneska Mello “... fé é isto: o pensamento  A querer enganar-se eternamente ... Cerra teus olhos profundos  Para a verdade que dói.  A Ilusão é mãe da vida...” Fernando Pessoa - O Horror de Conhecer Se a verdade liberta, tanto mais fere. Quase nunca é o que se deseja. Quase sempre é o que se evita. A verdade é um imbróglio, uma enrascada. Ela é cheia de contradições. Humano, demasiado humano querer escapar.  Outro dia mesmo inventei que eu era aquela da foto retocada. Não tinha olheiras e nem tantos anos de vida. A do espelho pela manhã, passei a ignorar. Inventei uma carreira de sucesso baseada em sinais exteriores e definições genéricas. Está toda no linkedIn, com palavras bordadas a mão.  Criei poderes sobre nada e ninguém. Eduquei - muito bem educados - filhos igualmente inventivos. Todos eles bem sucedidos. Nossa bem-aventurança pode ser confirmada nas redes sociais. No passado adoeci de amor por quem eu nem amava....

DE PEDRA... DE AVE...

 Inez Helena Muniz Garcia Texto reescrito por Vaneska Mello Por ser de lá do interior, do mato, da pedra, da anta preta, Ita-peruna, algumas vezes, sou pedra que voa, em outras, ave com asas de pedra. Curso Normal, Científico, meados anos 70. Graduação: comecei na Geografia, fui para a Matemática,1980. Professora: matemática e física, 1983. Depois, Letras, Português/Inglês e suas literaturas,1984.  Vim tanta areia, andei.  Vida de bancária, desde 1975 - Rio Grande do Norte, Brasília, Minas Gerais, Niterói, Rio de Janeiro. Militâncias? Sindicais, político-partidárias, pastorais.  De pé, ó vitimas da fome!/De pé, famélicos da terra!/Da idéia a chama já consome/A crosta bruta que a soterra. Bem unidos façamos,/ Nesta luta final,/ Uma terra sem amos/  A Internacional. Especialização? Em Recursos Humanos. Minha vida é andar por esse país. Cursos de formação de alfabetizadores de jovens e adultos, BB Educar, Brasil adentro: PA, MA, PI, CE, RN, BA, DF, MG, RJ, SP, ...

ESSA ESTRANHA MANIA DE SER DOIS

Vaneska Mello. Das coisas que mais nos ocupamos entre o nascer e o sucumbir sozinhos, está o delírio pelo fim de nosso exílio. Mãos dadas, vidas coladas. Desejos e sonhos comuns. Simbiose de ideias e pensamentos. Ausência de segredos. Eu não vivo sem você. Sem você nada faz sentido. E o poetinha ainda canta baixinho: “sem você meu amor eu não sou ninguém”.  Isso parece ser tudo que buscamos em matéria de afeto. Parece, até percebermos a ausência de nós mesmos na vida a dois que construímos. Sentir que somos dois nos dá a ilusão de que estamos a salvo do desabrigo da alma. Mãos atadas, vidas cerceadas. Desejos, sonhos, ideais e pensamentos que não se sabe ao certo de quem são. Ausência de privacidade. De repente a história de amor consumiu a identidade de dois seres antes completos. Ao faltar o outro só se é metade de alguém. Talvez ninguém. Não é uma regra geral dos afetos. Há pessoas que os vivem de outra forma, mais leve e plena. Há indivíduos que conseguem en...

TEMPO, TEMPO, TEMPO, TEMPO

Vaneska M. “És um senhor tão bonito, quanto a cara do meu filho”. Tempo - vou te fazer um pedido: não me deixe descuidar. Me ensine a estar atenta. Que eu não perca minhas horas contando minutos pretéritos. Que os relógios e os calendários não me sangrem. Que a dureza desse ano não torne dura minha matéria. “Por seres tão inventivo”. Tempo – me habilite a lidar com as feridas. Retrocesso. Opressão. Democracia abatida. Misoginia. Inflexibilidades. Ódio. Deboche. Miséria. Preconceitos multifacetados. Conservadorismo mortal. Acirramento de desigualdades. Que eu não seja tragada. Que meu espírito não se abata. Que eu conserve minha mais primitiva esperança. “És um dos deuses mais lindos” – Tempo. A ti minha pequena oração. *Oração ao Tempo, Caetano Veloso https://www.youtube.com/watch?v=jHTcEj_Am2E

CHEGAR E PARTIR

Vaneska M. Muito mais em razão de minha inabilidade social e certa ranzinzice, estive longe das redes sociais por longos anos. Foi atendendo à intimação de um grupo de escrevinhadores, que pela primeira vez embarquei nessa viagem. Não tenho mais que cinco pessoas que realmente conheço conectadas através da rede. Entretanto, já nas primeiras estações, percebi que o movimento dessas poucas pessoas gerava uma infinidade de inter-relações e múltiplas informações. Uma imensidão de passageiros circulando freneticamente pelos vagões que seguem sem trilhos. Através do recém-descoberto recurso seguir , um monte de gente interessante foi embarcando no comboio. Minha primeira reflexão de viagem foi: dá pra editar a vida na rede social. Então, você pode cair na falácia de que o mundo é um lugar menos desagradável. Isso, claro, se você não ousar ler os comentários nas postagens. Bem, vamos às minhas notas de bordo. As redes sociais têm uma gramática e vocabulários próprios. Se ...

A ARTE DA PERDA

Vaneska M. Depois de algum tempo de vida, a vida é de perdimentos. Assim fui alertada, quando ainda não era tempo de perder. A tantas coisas o perder é inerente, que perdê-las nem chega mesmo a ser um grande infortúnio. A arte da perda não é difícil de dominar. Perde-se algo a cada dia. Perdi cinco amores eternos. Tempo demais em discussões ordinárias. Uma camiseta preta; vinte e sete guarda-chuvas; duzentos e trinta e três pés de meia, algumas dúzias de brincos. Perdi as chaves de casas que também perdi. Perdi a conta das coisas que perdi, mas coisas são só coisas. Só servem pra tropeçar, ouvi no rádio. A esperança eu perdi uma vez. Avós, tios, vizinhos. Amigos cedo demais. Amigos insepultos. Perdi convívios fundamentais. Perdi contos, histórias, poemas, embalando gente que também perdi. Perdi metade da minha gentileza. Humor e banalidades. Perdi distâncias perto de mim. Duas bicicletas e a coragem de bicicletear. Perdi pudores, recatos, medidas. Perdi o medo do calendário que min...

MEU AMIGO DE TOURO

Vaneska M. A depender da boa vontade dos astros, jamais deveríamos ter nos aproximado: meu amigo de elemento terra tem os dois pés bem fincados nela. Eu, bicho doido correndo sem rumo. Metade gente, metade cavalo. Metade desespero, metade aflição. Metade gargalhada, metade dramalhão. Metade incêndio e a outra também. Como posso explicar o tanto que gosto dele? Talvez por tudo que me falte. Porque ele seja sábio, prático, resolutivo. Porque me segure na terra quando me disperso no ar. Talvez porque eu goste quando ele sorri. Talvez porque longe dele estou sempre um pouco sozinha. Meu amigo de touro é todo ética. Respeita as mina. Entende as mina. As mais sacanas, as presumidas santas e as putas assumidas. Gosta delas. Ele só vê gente. Um Bukowski sem medo de ser decente. Ele não fura fila. Não sonega imposto. Não explora o trabalho de ninguém. Não paga propina. Não quer levar vantagem. Cumpre as leis de trânsito. Não recebe troco superfaturado. Ele não dá jeitinho. ...

POR QUE ACABA O AMOR?

Vaneska M. Sempre segui o conselho de Drummond sobre a palavra amor: não facilito, não jogo no espaço, não emprego sem razão, não brinco, não espalho aos quatro ventos. Se melhor discípula fosse, sequer a pronunciaria. Fato é que morro de medo de tentar falar de amor. A sensação é de que quaisquer palavras que use o tornarão menor e vulgar. Muito mais por incompetência poética e filosófica, não ouso defini-lo.  Minha pequena arrogância aqui será indicar mal traçadas hipóteses sobre o porquê de seu fim. Os adeptos de sua faceta romântica dirão que ele não acaba. Se acaba não era amor. Os mais apegados dirão que ele se transforma. Eu acredito que o amor acaba. Repleto de si ele não se contenta com ser nada além de amor. O amor acaba porque gasta. Porque usamos sem moderação. Sugamos tudo. Roemos até o caroço. Lambuzamos a cara como se amanhã não houvesse. O pobre do amor fica sequinho e cai do pé. O amor acaba soterrado na casa própria. Atropelado pelo carro n...

QUEM TEM ALMA NÃO TEM CALMA*

Vaneska M. Dura é a vida dessa gente que tem excesso de alma. Esses seres que sentem demasiado. Que não mergulham raso. Que não entendem de simplicidade ou leveza. Que são íntimos de obscuros. Que levam tudo no fio da navalha. A eles, toda minha ternura. Como não admirar essas pessoas que sempre ouvem mais do que se diz: uma entonação; uma pausa; um suspiro; um baixar de olhos – tudo tem mil significados. Que sempre leem mais do que se imaginou escrever: a secura do ponto; a pretensão do ponto e vírgula; o exagero da exclamação; o descompromisso das reticências. Que têm olhos capazes de enxergar além do espectro visível.  Como não estimar quem é capaz da maior das humanidades – entender a tua dor. Porque essas pessoas podem senti-la como se sua. Por esta razão, um de seus talentos é uma escuta sempre qualificada e cheia de compreensão e envolvimento. Quem mais entenderia até mesmo a tua palavra sufocada? Como não respeitar esses seres que amarguram indecisões, pois...

AOS MENINOS GENTIS

Vaneska M. Ela é tão essencial para as mulheres que nem deveria ser chamada de acessório. Não há registro histórico de mulher alguma, nem mesmo a mais hippie ou desapegada que não tenha seu modelo preferido e não tenha ao menos umas três penduradas pela casa. Há mulheres obcecadas por elas, acumuladoras. Muitas as carregam repletas de simbologias. Muitas as ostentam como prêmios. De ombro, a tiracolo, tipo mochila, de couro, parecendo couro. Barata, responsável por endividamento de meses, neutra, colorida, exótica. Seja como for, ela, a bolsa, é quase uma extensão feminina. Se a bolsa é da mulher, é em seus femininos ombros, antebraços ou mãos que ela deveria sempre estar. Somos fortes pra isso. A visão de um gentil menino, carregando a bolsa de sua eleita, sempre me causa desconforto e estranhamento. A linda bolsinha de repente vira algo monstruoso, deslocado, um corpo estranho muito estranho. E o que dizer do pobre rapaz? Em ombros errados, aquela enorme bolsa em ve...

SOBRE ESMALTES E O FUTURO

Vaneska M. O mês começa influenciado pela Lua Cheia em Capricórnio, que chega unida em ótimo aspecto com Plutão, indicando grandes mudanças e transformações. Ela entrou novamente naquela fase de pintar as unhas todos os dias. Maus presságios. Unhas vermelhas num dia, rosas no outro e então uma mal acabada francesinha. Isso sempre significava a mesma coisa: tudo precisava mudar. Foi assim aos 15, repetiu-se aos 26. Foi só lá pelos 32 que aprendeu a fazer as malditas francesinhas. Agora aos 47 colecionava tons de nude compulsivamente. A vida era um tédio. Os filhos estavam longe. O dinheiro era pouco, o afeto era pouco. A paixão era uma dúvida e sempre perda de tempo. Leu, anotado em seus alfarrábios, o aforismo de Arthur Schopenhauer: "Os primeiros quarenta anos de vida dão-nos o texto, os trinta seguintes, o comentário." Seu texto não estava completo, estava longe disso. O filósofo, porém, a sentenciara ao fim. Seu texto, na verdade um mal elaborado rascunho, só estari...

PELA BOCA

Vaneska M. Eu gosto de gostos. Gosto de comida quente e de verdade. Arroz, feijão, bife e batata frita. Gosto de sopa de inhame com carne seca. Gosto de farofa de ovo. Pão, manteiga e vinho. Ando de braços com Bernard Shaw: não existe amor mais sincero do que aquele pela comida. Nesses tempos de suco verde e tapioca, porém, esse meu amor parece cada vez mais bandido. Eu não tenho arrepios diante de frango grelhado e salada. Eu até gosto bastante de batata doce. Como frutas todos os dias... mas ditadura alimentar não é coisa que me sirva. Podem me prometer um corpo perfeito ou viver até os 115 anos. Podem prometer que vou acordar com disposição para correr uma maratona. Eu não vou abrir mão do chope na sexta, acompanhado da tábua mista do Urich por nada disto. Aliás, mesas de bar são lugares alegres. Meta um patrulheiro alimentar nela e a tornará um lugar lastimável. Perdoem-me as musas fitness; os gurus da alimentação saudável; os amantes do mundo sem glúten e lactose. Iss...

ADORO VIAJAR, ODEIO TURISMO

Vaneska Mello Há pessoas, geralmente incompreendidas, que não gostam de viajar. Se estressam com preparativos. Têm grande apego às suas rotinas. Estão satisfeitas com o que já conhecem. Entendo perfeitamente esses seres do fundo de seus sofás. Mas não sou um deles. Eu adoro viajar, o que odeio, hoje e cada vez mais é o turismo. É certo que a distinção entre o turista e o viajante que aqui apresento não é científica. É só fruto caído de minhas impressões. Por isso não tem pretensão de verdade ou convencimento. O turista tem roteiros e lugares imperdíveis a visitar. O viajante tem liberdade e lugares que sonhou conhecer. O “é imperdível”, ou o “como assim você não esteve lá” o oprimem sobremaneira. Impõem obrigações. As multidões, as filas e os atropelos em nada são compatíveis com o que entende por lazer e prazer. É um preço alto demais, que só paga por um desejo muito pessoal. Viajantes estão mais focados no prazer da experiência do que no registro. Não fosse bastante ...