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Mostrando postagens com o rótulo Carolina Geaquinto

A MULHER QUE AMAVA AS PALAVRAS

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Carolina Geaquinto Machado de Assis ensina que as palavras têm sexo, amam-se umas às outras, casam-se. O casamento delas é que se chama estilo. E o casamento de uma pessoa com uma palavra, como se chama? De vez em quando, me vem à cabeça uma palavra que não sei direito o que quer dizer. Resolvo logo ir ao dicionário, o fiel companheiro, ainda que às vezes traiçoeiro. Pois um dia resolvi procurar “chorumela” (não me pergunte por quê...). Acabei descobrindo que, primeiro, “chorumela” pode ser uma coisa de pouco valor, uma ninharia. Mas o sentido que estava realmente procurando, aquele da expressão “não me venha com chorumelas” é o que está registrado como um regionalismo do Rio Grande do Sul, ou seja, um discurso monótono, uma lengalenga (outra palavra muito divertida). Mas eis que, no meio do caminho, quer dizer, das páginas, encontrei “chumbregar”. Foi paixão à primeira vista! Essa sonoridade extravagante, brega mesmo como está na própria palavra, me encantou. Mas nã...

O SISTEMA DO NOSSO DIÁLOGO

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Carolina Geaquinto — Foda trabalhar com a recém senhora ex. E se cobrar ser fodão e não sentir nada. — Foda mesmo... Mas vocês não tinham voltado? — Tínhamos... Segunda da semana passada. Domingo por telefone. Uma segunda fofa. Uma terça legal. Na quarta o pau comeu de novo. Discutimos muito. — Que pena... — disse Z quase imperceptível, mas Y mal ouviu e logo emendou: — Ou melhor, sempre discutimos muito. Na quarta, fomos embora tristes, mas ainda sem forças pra mandar se foder. A quinta continuou com esse clima de enterro, íamos fazer algo leve que não exigisse demais de nossos espíritos. Porém um problema de trabalho causou uma desconfiança acerca da minha pessoa e aí o pau comeu.  Nos primeiros dez minutos a sós. Inviável —– Y destilou seu drama. — Então vocês terminaram? — disse Z, cobrindo sua ansiedade com uma fina camada de empatia. Y parecia estar no modo automático: — Mesmo assim continuamos com o programa e fomos a uma confeitaria. É isso mesmo: o pau co...

11 SUGESTÕES PARA FICAR DE PÉ, SEGUIDAS DE UMA SUGESTÃO EXTRA

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Carolina Geaquinto    (Israëlis Bildermanas, Lagny, 1959)       1) De pé, pernas estendidas, dobre o joelho direito, balance o pé ligado a esse joelho para frente e pouse-o sobre um ponto de apoio ascendente. Incline o quadril para frente e para cima, solte a perna esquerda do chão e dobre também o joelho desta perna, como o da outra, mas agora pouse o pé um pouco acima, sobre outro ponto de apoio ascendente. Repita os movimentos, sempre alternando pernas, joelhos e pés até chegar a um nível onde não haja mais apoios ascendentes, apenas apoios planos. Nesse lugar plano, deslize o pé direito para frente e o esquerdo para o lado. Tombe o tronco para trás. 2) Antes de querer ficar de pé, tente embrulhar seu equilíbrio em uma folha de papel, como para presente de Natal ou de aniversário. Toda vez que quiser ficar de pé, desembrulhe seu equilíbrio e escreva no papel o que sente. Faça isso durante duas semanas seguidas e conseguirá diminuir seu...

É PRECISO HAVER DIAS DIFÍCEIS

Carolina Geaquinto “O dia mais difícil da minha vida” parece tema de redação de volta às aulas, no mesmo tom de “minhas férias” ou “minha família”. Há qualquer coisa aí que sugere a expectativa certeira de uma narrativa que se acomoda, que se repete e se imprime a exaustão. O dia mais difícil da minha vida não foi o dia em que minha mãe morreu. Porque eu não me lembro desse dia. Eu não lembro quem me disse: “sua mãe morreu”. Eu não lembro onde eu estava, o que eu fazia. Todo mundo sabe o que estava fazendo quando aconteceu o 11 de setembro. Mas eu não sei nada sobre mim num dia da minha própria vida. Eu me lembro de vê-la no caixão, mas não sei se foi no mesmo dia em que ela morreu. Eu me lembro de vê-la no caixão com o vestido mais bonito que tinha, um vestido claro, meio champanhe, cheio de florezinhas rosas e lilases, há uma foto dela com esse vestido, posso te mostrar. Na foto ela está viva (as pessoas estão vivas nas fotos?). Eu me lembro da palidez disfarçada e da pe...

SUBSTITUIÇÃO, UM EXERCÍCIO

Carolina Geaquinto “alternância dos dedos sobre uma mesma tecla. troca de um desejo inconsciente por outro. reação na qual se troca um elemento de uma molécula por outro sem que essa troca resulte em modificação importante”. (Adaptado do Dicionário Eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa , 2004)  Autoengano é enxergar o acaso, é não conhecer o vizinho. Autoengano não é lucidez. Autoengano é um desvio, é um desejo. Autoengano não é um resultado.  Autoengano é achar que não vai chover, é achar que o avião vai cair. Autoengano não tem sutileza. Autoengano é levantar todo dia, é o nome da sua mãe no caixa automático. Autoengano não é tombar no esquecimento. Autoengano é acrescentar um depois, é dizer sim querendo dizer não. Autoengano não faz arco-íris. Autoengano é dieta na segunda, é estar na casa vazia. Autoengano não é otimismo. Autoengano é não lembrar a tabuada, é tropeçar e não cair. Autoengano não tem cheiro. Autoengano é ir à Disney comprar boneco do ET, ...

MEL

Eliana Gesteira Reescrito por Carolina Geaquinto Estava à espreita no parapeito da janela desde o início da manhã, até que acabou indo se sentar na almofada jogada no fundo da sala. Lá não ficou nem cinco minutos. Andou daqui para ali, percorreu os vãos entre as cadeiras e, por fim, se agachou e colocou a cabeça no chão. Depois de um tempo, a barriga roncando, procurou alguma coisa para comer, mas como a comida não lhe apetecia, acabou indo dormir. Ao se deitar de lado, viu no assoalho um brinquedo mastigado sem muito entusiasmo e de repente resolveu brincar consigo mesma. Então coçou a orelha, se cheirou, mordeu um dedo, coçou a barriga e enfiou a cabeça entre as pernas, posição em que ficou por quase uma hora.  De repente percebeu um perfume no ar. Levantou num salto e correu em direção ao quarto, onde parou um instante antes de decidir se subia na cama ou mexia nos chinelos largados. Revirou primeiro um e em seguida o outro, mas desistiu e foi procurar as ...

GEOLOGIA

Carolina Geaquinto “Ciência cujo objeto é o estudo da origem, da formação e das sucessivas transformações  [...]” (Novo Dicionário Eletrônico Aurélio, 2004) Minha irmã já foi palmeira. Eu, rocha. Mais precisamente já fui o morro Pão de Açúcar. Não tenho dúvidas. A explicação é genealógica, meu pai se chama Pedro que, como se sabe, vem do latim que veio do grego que veio possivelmente da palavra aramaica para pedra – Kepha. Minha mãe se chama Alvanir, um sinônimo de alvanel – aquele que constrói, pedreiro – que vem do árabe al-banná. Até aí nenhum mistério, isso está no dicionário e na minha certidão de nascimento. Não sei por que minha irmã saiu palmeira, deve ser por isso que ela é a mais alta e a mais morena da família.  Vindo da pedra e do pedreiro, surgiu eu, Carolina. Reza a Wikipedia que Carolina é a versão latinizada do germânico karl – que significa homem forte – e lind – doce. E nascida no dia do padeiro, só posso ter sido o Pão de Açúcar. Feita de c...