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TEXTO INTIMISTA: VESTES, VESTIDOS, VASTAS SENSAÇÕES

Maria Júlia Povoado de babados azuis, sianinhas, plissados, confeccionado pela minha querida madrinha, o vestido era de organdi rosa e me fazia parecer um pudim de romã ou um bolo confeitado para festa junina. Nada tinha a ver comigo. Aos dez anos de idade, eu achava que merecia algo menos infantil. Mas não ousei rejeitá-lo e com ele compareci, toda emperiquitada de sapatos e bolsas cor de rosa, ao casamento de uma prima. Creio que foi a partir daí que passei a desdenhar o costume de vestirem as meninas de cor de rosa, bem como certas imposições da moda que, nos vêm, em geral, dos grands couturiers. À propósito, implico também com a profissão de modelo, com a prescrita anorexia das moças, as caras, caretas e bocas que ostentam na passarela. Existirá algo mais artificial? Eu admirava, isso sim, os vestidos das minhas tias, feitos pelas costureiras que iam lá em casa medir, provar, opinar. Lindos godês, cinturas definidas, golas grandes , mangas curtas, estampados delicados,...

CRIME SEM CASTIGO

Jurandir de Oliveira Objetos muitas vezes inesperados adquirem importância em nossas vidas para com o tempo acabarem esquecidos no fundo de um armário. Não quero entrar no porquê, mas houve uma época em que eu estava decidido a conseguir um molde para confeccionar chapéus. Eram os anos 80 e as poucas chapelarias que não haviam fechado, emanavam, faz muito, aquele ar de anacronismo e de abandono. O fato que eu quero narrar aconteceu num lugar assim. Uma lojinha no Largo do Machado, Rio de Janeiro. Olhando pela vitrina empoeirada, via-se em primeiro plano, alguns modelos de chapéus antiquados, em cores que teríamos que imaginar, subtraindo o efeito do tempo e do sol implacável. Nas prateleiras internas da loja, uma camada suave de poeira, dava a alguns modelos, vistos desde onde eu estava, uma aparência aveludada. Outros elementos como uns poucos bibelôs , um espelho bisotado e flores de seda, compunham esse melancólico acervo. Desviando o olhar para o fundo da loja, numa...

SOBRE ESMALTES E O FUTURO

Vaneska M. O mês começa influenciado pela Lua Cheia em Capricórnio, que chega unida em ótimo aspecto com Plutão, indicando grandes mudanças e transformações. Ela entrou novamente naquela fase de pintar as unhas todos os dias. Maus presságios. Unhas vermelhas num dia, rosas no outro e então uma mal acabada francesinha. Isso sempre significava a mesma coisa: tudo precisava mudar. Foi assim aos 15, repetiu-se aos 26. Foi só lá pelos 32 que aprendeu a fazer as malditas francesinhas. Agora aos 47 colecionava tons de nude compulsivamente. A vida era um tédio. Os filhos estavam longe. O dinheiro era pouco, o afeto era pouco. A paixão era uma dúvida e sempre perda de tempo. Leu, anotado em seus alfarrábios, o aforismo de Arthur Schopenhauer: "Os primeiros quarenta anos de vida dão-nos o texto, os trinta seguintes, o comentário." Seu texto não estava completo, estava longe disso. O filósofo, porém, a sentenciara ao fim. Seu texto, na verdade um mal elaborado rascunho, só estari...

EM CASO DE DÚVIDA, CONSULTE O SEU CORAÇÃO

Ana Paula Cruz Leila é uma linda mulher na faixa dos 35 anos, bem sucedida profissionalmente e financeiramente. Conseguiu conquistar sua independência financeira ainda bem jovem, ao custo de muito trabalho e estudo. Ela tem quase tudo que as mulheres de sua idade almejam: casa própria, carro zero e um guarda roupa de dar inveja a qualquer uma. Porém, muitas vezes ela precisa disfarçar sua frustração quando percebe que todas as suas amigas estão se casando e ela sequer tem um namorado para dividir a pipoca durante a sessão de cinema. Pensa consigo mesma: será que há algo errado comigo? Porquê meus romances não dão certo? No fundo, ela sempre acalentou o sonho de se casar de véu e grinalda na igreja e de ter filhos.  Nos fins de semana, ela costuma sair com as amigas para beber uma cerveja, relaxar e dançar. Conhece vários caras, beijas alguns e outros ela faz questão de dispensar assim que percebe o flerte. Sua angústia aumenta quando ela tem de voltar sozinha para casa....

A CARTOMANTE

Liacora Ela era assim, vestia a saia estampada que escorregava cintura abaixo até que amarrava a faixa vermelha.../ a blusa ela tinha duas opções : podia ser uma de mangas fofas e toda trançada na frente, cor ocre ou uma camiseta vermelha de malha rendada/ ela gostava do modelo da 1a e da cor da 2a/ escolheu vestir a de mangas compridas e enfeitou com uma flor vermelha/  Aquela menina tinha só 12 anos e toda 5a feira vestia-se de cigana e atravessava a ponte até o Bairro Sigaud/ era um bairro de imigrantes do leste europeu e era lá que o seu tarot se manifestava/ há um ano que aquele baralho era seu/ presente da sua única tia/ a menina ficara fascinada com as imagens dos arcanos maiores/ examinara cada detalhe e as associações vieram sem controle/ ela sabia que tinha algo especial nas mãos/ a partir daquele dia , seu tarot ia com ela para todos os lugares, dentro de um saquinho de malha/  Ester era pobre/ não conheceu seus pais e só depois de maiorzinha ficou sa...

CARTOMANTE

Jerusa Nina Mulheres de saias rodadas de muitas rendas coloridas. Dentes de ouro e pescoços carregados de penduricalhos. Mal descíamos da barca em Niterói e as andarilhas estendiam as mãos buscando as nossas para ler. Mistério em seus olhares aguçava minha curiosidade a ponto de me fazer insistir para que papai deixasse os segredos da minha vida serem desvendados em décadas antes das experiências. Um pouco contrariado ele aceitou fazer minha vontade. - Terás vida longa! “Que bom!”. Pensei.  Aos sete anos já não me agradava mesmo a ideia de morrer. “Quem me dera pudesse dizer que não morreria nunca. Aí sim, seria uma grande revelação”. - Esta aqui é a linha da vida... “Como ela consegue ler as linhas das mãos? Que dom divino! Mas onde estão as letras? Quem me dera se ela conseguisse ler as letras nas mãos. Aí sim, seria uma grande revelação. - Vás casar cedo! “Nossa, como ela pode saber disso? Que maravilha! Mas com que idade? Quem me dera se...

UMA QUESTÃO DE FÉ

  Sonia Andrade Não acredito em bruxarias, mas sei que elas existem. Atire o primeiro búzio quem nunca teve curiosidade sobre o futuro, principalmente, sobre o seu futuro. Não vivo buscando uma vidente para chamar de minha, uma guru. Mas, sou mulher e não resisto quando uma amiga sugere uma visitinha a uma vidente que acertou tudo com ela. Nesse momento, a curiosidade fala mais alto que a razão. Curiosa que sou, aceito a sugestão. Muito mais impelida pela simples curiosidade do que por necessidade de solucionar algum grave problema. É o sonho da bola de cristal que resolve tudo para a gente, poupando-nos da necessidade de pensar muito para tomar decisões e evitando correr riscos. Simples assim, desde que só nos dessem notícias boas. As amargas não, como disse o escritor. Em todas as vezes, acreditem, fui com fé. Mas, parece que fé é um sentimento sobre o qual não temos controle absoluto. Movida por esse impulso e pela propaganda positiva de amigas, consultei algumas vident...