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AGORA É QUE SÃO ELAS

Angela Fleury Nem sempre é fácil escrever. Mil ideias, mas todas se misturam, passam de um lado para o outro embaralhando a cabeça. É preciso focar, estar atento e forte, voltar para si mesmo. O que você estava mesmo pensando? O que você estava mesmo querendo dizer? Voltar e sair de si mesmo, voltar e sair, ir e voltar... Vamos lá. Foca. O dia nem bem começou e já está prestes a acabar. São 6 horas já? Não acredito! O dia já acabou e eu não fiz nem metade do que eu estava querendo fazer. O tempo voa. Qual era mesmo o tema desse texto hoje? Política nacional, a meta fiscal, o novo feminismo, o terrorismo internacional, a questão do meio ambiente, o encontro de 150 lideres mundiais em Paris para discutir o aquecimento global? Nem sempre é fácil escrever, nem sempre é fácil viver. Não! Para com isso, você não tem do que reclamar. Olha em volta e reconheça, aprecie e agradeça. Como diz aquele ator argentino maravilhoso, você toma um banho quente por dia, abre a torneira...

A VIÚVA

Maria Júlia Era uma vez... Madame B. era uma senhora de origem alemã, viúva de um diplomata. Morava no bairro nobre da cidade, numa imensa casa antiga, de tetos altos, mobília clássica. Alugava quartos para estudantes e foi assim que se conheceram. Da parte dela, foi amor à primeira vista, como gostava de repetir. No caso dele, foi o faro agudíssimo para a causa maior. Ele era bem falante, dono de um humor irônico e mordaz, boa aparência, sabia agradar as pessoas quando queria, e possuía uma tenacidade cansativa, a paciência de Jó para perseguir seus desejos. Madame B. era sozinha, vivia de mal com a família que “só queria o seu dinheiro”, e, com o seu morno calor alemão, acolheu o estudante pobre e isolado. Família ele não tinha, amores, tampouco, apenas alguns amigos e uma vida social centrada nas atividades estudantis. Ajudava Madame B. em algumas tarefas, conversavam sobre filosofia de salão e arte, sobretudo, Matisse, Chagal, e outros, os pintores que ela tinha nas pared...

INTEMPÉRIES

Angela Fleury              Uma devastadora guerra civil na Síria parece estar cada dia mais longe de uma solução pacífica. Uma grande nuvem de incertezas paira sobre o céu do Mediterrâneo e seus arredores. A fragmentação do país é evidente. O mapa da guerra descreve a intensificação dos conflitos. A seita alauita de Bashar al-Assad controla a capital Damasco e a Costa do Mediterrâneo, o Estado Islâmico domina várias áreas sunitas ao Leste, outro grupos de rebeldes sunitas controlam áreas no Norte e no Sul e os drusos que até então prestavam lealdade ao governo já começam a pensar em autonomia. O país segue em direção à fragmentação e os efeitos esperados da guerra civil são preocupantes.              Não bastasse esse quadro dramático, que se apresenta por si só trágico e inquietante, tivemos essa semana um agravamento das ações russas no país, intensificado c...

E A CHUVA CONTINUA CAINDO

Eliana Gesteira Cabelos espalhados no ar e saia esvoaçante em mãos que em vão se esforçavam. Um assobio forte, seguido de um ruído de coisa quebrada, assustou uma jovem. Sob seus pés voavam pedaços de vida esquecidos na rua durante aquele dia quente de setembro. Embora o mundo estivesse preste a desabar, a jovem, que os amigos chamavam Bia, encontrava-se sentada no banco da praça desde o início da tarde, quando o céu sobre sua cabeça passou de um azul claro brilhante para um pesado cinza escuro.  “Preciso me acalmar”, disse a si mesma. Mas o dia anterior insistia em surgir como um pesadelo que não acabava nunca e calma, definitivamente, era algo que Bia não desejava ter naquele momento.  Apesar de sua obstinação em não sair do lugar, quando os primeiros pingos de chuva começaram a cair sobre sua cabeça e a molhar seu rosto, ela não teve escolha. Correu contra o vento e foi encontrar abrigo num restaurante no outro lado da rua.  Enquanto corria, lhe ve...

TEMPESTADES

Elisa Maria Rodrigues Sharland A natureza tem suas belezas e encantos, mesmo quando sua expressão violenta representa tormenta para aqueles que são, por essa expressão, atingidos. Também os seres humanos, em muitas de suas expressões, se assemelham àquelas da natureza. Erupções, tempestades, ventanias, avalanches, terremotos, tsunamis – a natureza em sua linguagem agressiva que representa um grito de socorro e, ainda que seja chamado, pela ciência, de “fenômeno da natureza”, é visto como um desastre, uma catástrofe, que assola e desfigura paisagens e pessoas. Assim também, nós, em reações violentas, somos comparados a esses desastres e, as consequências podem ser tão devastadoras quanto àquelas provocadas pela natureza. Seria porque ambos – natureza e humanos – fomos gerados pela mesma energia inicial – o Big Bang, nos assemelhando assim nesse poder de destruição? Pensando nisso, Letícia começou a refletir sobre as suas fúrias incontroláveis, a que era acometida algumas ...

UMA QUESTÃO DE TEMPERAMENTO

Maria Júlia O vento sopra lá fora...É um som abstrato e fundo. Seu sentido é ser profundo Fernando Pessoa  - O vento gosta de mexer com pessoas e coisas tirando-as do seu delicado equilíbrio. Um ar em movimento que pode fustigar, incomodar, imobilizar, destruir, impedir a passagem, isolar os corpos, matar.  Por outro lado, sempre esteve disponível para servir de metáforas a obras imortais. Quem não apreciou a bela saga gaúcha de Érico Veríssimo? A narrativa sobrenatural de A sombra do vento? O épico E o vento levou... que conduziu Scarlet O’Hara e Reth Butler pela Guerra da Secessão americana afora? O amor fatídico de Cathy e Redcliff no Morro dos ventos uivantes?  Porém, o vento também é capaz de praticar estranhos feitiços. Lamentavelmente, nem Emily Bronte nem Margaret Mitchell, foram capaz de escrever uma só linha após o sucesso alcançado por estas duas obras. O vendaval literário imobilizou-as para sempre.  - Outro dia, daqui da var...

LOUBOUTIN

Jurandir de Oliveira A culpa foi dela. Da chuva! Entrei por 5 minutos e quando sai, aquele temporal.Aqui no Panamá é assim. Seis meses de sol e seis meses de chuva. Estávamos nos seis de chuva,é verdade, mas o dia andava tão bonito que nem desconfiei, não como as outras vêzes que olho pro céu e aquelas nuvens negras, rondando. Fui só para comprar um chiclete, detesto almoçar e ficar com aquele gosto de comida na boca.Entrei na drugstore, só pra comprar o maldito chiclete. Eu já a tinha visto na fila. Impossivel que não, sou do tipo de casado que não busca encrenca mas   quando ela saiu da fila, movendo-se daquele jeito, só um cego não olharia, cego ou coisa pior. Paguei com os 2 quarters que tinha no bolso, rapidinho,querendo voltar de uma vez pro escritório e só então   percebi aquela algazarra   de gente entrando toda molhada. Havia um temporal la fora. Já a rua estava alagada. Sai e fiquei alí, debaixo da marquise da Arrocha olhando aquele caos. Chu...