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TALVEZ O ÚLTIMO DESEJO

Exercício coletivo da Roda - Raquel de Queiroz "Pergunta-me com muita seriedade uma moça jornalista qual é o meu maior desejo para o ano 1950 (...). Me deitar numa rede branca armada debaixo da jaqueira, ficar balançando devagar para espantar o calor, roer castanha de caju confeitada sem receio de engordar, e ouvir na vitrolinha portátil todos os discos de Noel Rosa, com Araci e Marília Batista. Depois abrir sobre o rosto o último romance policial de Agatha Christie e dormir docemente no mormaço. Mas não faço. Queria tanto, mas não faço. O inquieto coração que ama e se assusta e se acha responsável pelo céu e pela terra não deixa. De que serve, pois, aspirar à liberdade? O miserável coração nasceu cativo e só no cativeiro pode viver”. Aspiramos à liberdade, mas as redes que aprisionam muitas vezes são as mesmas que nos embalam. As mesmas redes em que nos aninhamos confortáveis. Embora quase nunca esse conforto seja ausência de dor. Ele é só um conformar-se, um e...

TALVEZ O ÚLTIMO DESEJO II

Exercício coletivo da Roda - Raquel de Queiroz "Pergunta-me com muita seriedade uma moça jornalista qual é o meu maior desejo para o ano 1950 (...). Me deitar numa rede branca armada debaixo da jaqueira, ficar balançando devagar para espantar o calor, roer castanha de caju confeitada sem receio de engordar, e ouvir na vitrolinha portátil todos os discos de Noel Rosa, com Araci e Marília Batista. Depois abrir sobre o rosto o último romance policial de Agatha Christie e dormir docemente no mormaço.” Acordar sob os pequenos açoites dos pingos da chuva vespertina. Respirar profundo o cheiro da terra molhando, que sempre foi cheiro de contentamento. Não me importar com o penteado que escorre. Correr louca e negligentemente a procura de um abrigo de que não preciso. (Vaneska) Tudo isso que a primeira vista pode parecer tão simples, não faz ideia o luxo que hoje significa para mim. Dias atrás, sentada num banco do Central Park, olhando aquelas árvores tão tristes e inve...

PROPOSTA DE EXERCÍCIO

Tema: A história continua.... A ideia é continuar o parágrafo abaixo conforme quiserem. diálogo, monólogo, descrição, etc. O próximo faz um espaço e acrescenta seu parágrafo (máximo 8 linhas). O seguinte copia, cola e acrescenta.  TALVEZ O ÚLTIMO DESEJO     Rachel de Queiroz "Pergunta-me com muita seriedade uma moça jornalista qual é o meu maior desejo para o ano 1950  (......). Me deitar numa rede branca armada debaixo da jaqueira, ficar balançando devagar para espantar o calor, roer castanha de caju confeitada sem receio de engordar, e ouvir na vitrolinha portátil  todos os discos de Noel Rosa, com Araci e Marília Batista. Depois abrir   sobre o rosto o último romance policial de Agatha Christie e dormir docemente no mormaço.”

O MAL AMADO

Sonia Andrade                     A noite quente, sem brisa para amenizar o calor, era um convite ao ar condicionado. Depois de um dia inteiro de visita aos pontos turísticos da cidade, seria preciso desfrutar de uma noite tranquila na temperatura amena, climatizada. Exaustos, dormimos profundamente, alheios aos ruídos externos. Acordamos tarde, de olho no relógio, a tempo de não perder o café da manhã, um dos pontos fortes do hotel. Tudo parecia igual ao dia anterior, até o momento em que olhei pela janela   e percebi algo estranho. -- O que está acontecendo aqui? -- O quê?- ele perguntou, tentando entender a pergunta. -- Parece incêndio. Tem uma escada  de bombeiros encostada à parede do hotel – esclareci. Ele pareceu não acreditar. Como já diziam os antigos, onde há fumaça, há fogo. E não havia sinal de fogo por perto. Saímos do quarto e, no corredor, encontrei vários bombeiros rindo, animadamente. A cau...

Jurandyr de Oliveira Hoje entendo como minha progenitora teve que ser cuidadosa, escolhendo para depositar seus ovos em lugar pouco acessível - debaixo das folhas! O primeiro sentimento que lembro como parte da minha efêmera existência foi o de despertar com uma fome insaciável. Meu corpo movendo-se num ritmo cadenciado sem nenhum esforço . A mente vazia, só o resplendor do verde comigo, se fundindo. E a umidade de algumas gotas de sereno, sobre o aveludado das folhas. São poucas as memórias daquela época.  Movendo-me, descobri que apesar de ter adquirido aos poucos, tamanho e algum peso, podia caminhar em cima ou embaixo das folhas, sem cair. Com o tempo, era tanta a habilidade , que podia estar com somente parte do corpo pegado às folhagens e o resto ao ar.  Podia enroscar-me deliciosamente ou balançar-me. Em segundos, o mundo virava literalmente de cabeça para baixo e um azul brilhante invadia o meu campo de visão.  Os delicados fios que sou capaz de...

QUE HORAS ELE CHEGA?

Eliana Gesteira  A luz da manhã entra pela janela e cai direto nos olhos de Francisca. Ela desperta e imediatamente se volta para o lado. O lençol no chão e a cama vazia não a surpreendem. Na mesinha do canto um relógio mudo a faz levantar num salto. Prende o cabelo em coque e coloca no corpo franzino o vestido azul claro, procurando disfarçar uma ponta desfeita. Sente uma ligeira tonteira e mais uma vez jura que amanhã irá ao médico. Precisaria, claro, pedir uma folga à Dona Míriam, que fará cara de pena com um “sinto muito”, seguido de um “logo amanhã!?”. Mas afasta o pensamento, afinal não quer ser ingrata com a patroa. Toma café, desce as ruas estreitas e chega ao asfalto. Para na banca perto do ponto, lê as notícias que balançam em jornais desajeitados. Atravessa a rua, dá sinal para o ônibus e se espreme entre os passageiros. Desce, corre e pega o elevador de serviço. “9 e 15 Meu Deus!”. Chega à noitinha, sua casa está em silêncio e às escuras. Francisca anda devag...

CHAPEUZINHO DE LINHA

Lidia  Detesto, às vezes, ter que ir à rua/ preferia ficar e resolver o problema dessa impressora, que já me fez perder tanto tempo/ estou sozinha em casa e gosto de ficar em casa quando está tudo silencioso/ Vá lá que seja!  quando passei em frente ao jornaleiro, tive certeza de que minha cabeça está tumultuada mesmo/ li na manchete "navalhada no cenário"/ olhei melhor e estava escrito "maravilha de cenário", com referência à música da Império Serrano/ É, tá feia a coisa! / Segui em frente, direto ao banco, chateada por ter que pagar duas contas, com dinheiro emprestado do próprio banco (cheque especial) / detesto dívidas! / no caminho, bem ao lado do ponto de ônibus, na Voluntários da Pátria, em frente à uma agencia bancária, vejo a cena: o mendigo atravessado "béim" no meio do caminho, dormindo com a boca aberta, braços abertos e...braguilha aberta! / o passarinho em pleno voo, formando um angulo, absolutamente reto, em relação à barriga ...