DOIS IRMÃOS
Eliana Gesteira Olhos, só pálpebras, miram o chão. Às vezes abrem e vagam desinteressados. O dia passando e Cristina ali calada. Estava assim desde que ouviu: “Fica com ele! Tu, o menino e a casa. Tudo!”. Há dois meses, quando o cunhado João chegou, foi uma festa. Cristina fez carne assada, Pedro, o marido, comprou bebidas e o filho Marcelo era só alegria por finalmente conhecer o tio de quem tinha ouvido falar muito. A história que mais gostava era aquela em que o pai, ainda menino, assumiu a culpa pelo sumiço de umas cocadas que seriam vendidas na feira. Apesar da surra que levou, ele não entregou o irmão para a mãe, mulher que criava sozinha dois meninos no cafundó do Judas. Os anos se passaram e o mais velho precisou ir para o sul trabalhar. Novamente juntos, Pedro quis poupar João do sufoco que passou ao chegar no Rio de Janeiro. “Pode levar o tempo que precisar pra encontrar trabalho. Não vai fazer serviço pesado e mal pago não”, disse, esperando...