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DONA ROSALVA

Eliana Gesteira Era uma mulher baixa, gordinha e também muito ágil. Seu nome surge de um mundo longínquo, onde havia muitas tarefas a cumprir e também horários rígidos para rotinas como comer, tomar banho e dormir. Da lembrança surgida, tento dar um desconto aos traumas que se fixaram em mim como uma tatuagem da qual só comecei a aceitar à medida que os anos se distanciavam e a marca se tornava indelével. Falo de minha professora do primário, Dona Rosalva. Naquele tempo de castigos, reprimendas e decorebas, Dona Rosalva era soberana. Sua didática consistia nas leituras silenciosas, na tabuada mil vezes repetida e na conjugação de verbos cantada em uníssono na sala. Se por descuido algum aluno ousasse desafiar sua autoridade, era “convidado” a ficar com a cara colada no quadro negro ou a andar sozinho de um lado para outro repetindo trechos da lição perdida. Ao final da manhã de aula, a nossa saída se condicionava à resposta correta da arguição diária sobre multiplicações ou v...

MEU AMIGO DE TOURO

Vaneska M. A depender da boa vontade dos astros, jamais deveríamos ter nos aproximado: meu amigo de elemento terra tem os dois pés bem fincados nela. Eu, bicho doido correndo sem rumo. Metade gente, metade cavalo. Metade desespero, metade aflição. Metade gargalhada, metade dramalhão. Metade incêndio e a outra também. Como posso explicar o tanto que gosto dele? Talvez por tudo que me falte. Porque ele seja sábio, prático, resolutivo. Porque me segure na terra quando me disperso no ar. Talvez porque eu goste quando ele sorri. Talvez porque longe dele estou sempre um pouco sozinha. Meu amigo de touro é todo ética. Respeita as mina. Entende as mina. As mais sacanas, as presumidas santas e as putas assumidas. Gosta delas. Ele só vê gente. Um Bukowski sem medo de ser decente. Ele não fura fila. Não sonega imposto. Não explora o trabalho de ninguém. Não paga propina. Não quer levar vantagem. Cumpre as leis de trânsito. Não recebe troco superfaturado. Ele não dá jeitinho. ...

POEMINHA SOBRE A AUTOESTIMA DA MULHER BRASILEIRA (OU UM PEDIDO DE DESCULPAS POR EXISTIR)

Julia V. Para minha tia Nádia Sou macumbeira, converso com entidade, venero estátuas, sigo conselhos de pessoas inspiradas por espíritos. Mas meu coração é bom. Sou feminista, pela legalização do aborto. Esquerdista, pelos direitos dos pobres, dos excluídos, das minorias, de toda aquela gente que você acha chata e que atrapalha o teu sono, gosto é delas. Pode acreditar quando digo: minha alma é boa. Sou separada, não tenho marido, faço sexo - quando faço - é só por prazer, porque amar (e ser amada) está difícil. E nem venha me dizer que é porque não sou bonita o suficiente para "prender" um homem, já ouvi muito isso, cansei, mude a playlist. A verdade é a seguinte: apesar de tudo isso, sigo sendo uma pessoa de coração e alma boa.

TIPOS DA MINHA VIDA DOMÉSTICA

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Maria Júlia Saskia era alta, forte, loura, de cabelos cacheados, olhos azuis pálidos e arregalados. Sentada ali no meu sofá ao lado do marido, aparentava timidez e falta de traquejo. Parecia um tipo saído dos quadros de antigamente, mais precisamente, a Imperatriz Leopoldina. Após uma sessão de chá com biscoitos e as perguntas usuais, resolvemos contratá-la como “ajudante”, a palavra aqui usada para as domésticas. Combinamos que ela viria umas horinhas por semana limpar o apartamento e cuidar do meu filho. O meu parco holandês não contribuía para uma comunicação espontânea. Eu não sabia lidar direito com ela, estava me iniciando nos estranhos rituais de outra cultura. Saskia ia e vinha, trabalhava bem, sempre calada e séria, não queria muito contato comigo. De repente, avisou que não queria mais continuar lá em casa. O ambiente não era aconchegante e ela se frustrava com a preferência que meu filho claramente demonstrava ter por mim. Sentia-se simplesmente rejeitada. Foi a...

ECLESIASTES PUNK

Julia V Há tempo de se misturar, de se envolver, de estar com o próximo. E há tempo de se recolher, de dizer "até já", de fechar a porta, de sentar sozinha na praça. E de olhar o mar... Há tempo de chorar, de esfolar os olhos, de gritar de dor, de se arrastar pela vida, de sentir o peso. E há tempo de se libertar, de dizer "basta", de jogar os remédios todos fora, de gritar "já foi, já passou, já era". Há tempo de tudo nesta vida. Até de não ter tempo.

FRESTA PARA O INCONSCIENTE

Lidia liacora Um dia...seu sonho teve uma outra qualidade. Antes mesmo de abrir os olhos, ela sacudiu seu companheiro que dormia ao lado.   "Fui mordida por uma lontra!", disse, com ênfase , embora nao totalmente acordada.  Minutos depois, já desperta, pensou no sonho e ficou bastante surpresa: a palavra "lontra" nao fazia parte de seu vocabulário e nem lembrava de já ter visto tal bicho! No entanto, era muito nítida a cena : o animal com as unhas compridas, cravadas no antebraço dela, espetando-lhe a carne. Os olhos, grandes e brilhantes, cravados nos olhos dela.  Não era olhar de maldade, mas um olhar atento. E nao era uma "mordida", como falara ao companheiro. Lembrava ainda que o animal tinha o pelo marrom avermelhado, meio reto, tipo cabelo alisado e sem caimento. Ela nao sabia o que fazer, se puxasse o braço, podia se ferir muito... Nessa indecisão, acordou. Ficou o dia todo matutando: como podia sonhar com uma lontra, um animal que ne...

LETRAS E SONHOS

Elisa Sharland As letras vão preguiçosamente sobrevoando o papel, até que de repente, a primeira começa a pousar  e, suavemente se aninha em um lado do papel. Olhando para ela agora, parece com uma criança que, deitada no chão, folheando uma revista, finge ler. Com seus pezinhos para o alto, deitada de bruços, presta muita atenção aquelas páginas que estão à sua frente mas, não sai do lugar. Assim também a letra, observando o papel, à espera de alguém que lhe dê algum sentido. Não se move, talvez sentindo a pressão de alguma expectativa que a está a observar. Precisa ter alguma reação para dar continuidade ao seu primeiro impulso mas, nada acontece. A letra insiste em permanecer na sua solidão e a criança, em sua ilusão. Ambas, se abstraem do mundo e deixam fluir o seu pensamento cada uma com seu sonho, cada uma com sua história. Onde vão parar? _ Não sei. Cada uma está em seu lugar, isoladas, mas quem sabe, se ambas, num impulso momentâneo, se juntam...