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OS CACARECOS

Elaine Morais Hoje por força do destino abri uma caixa de cacarecos. Encontrei cacarecos tão ridículos ali dentro que achei graça de mim. O brinco esquerdo de um par perdido, tampões de orelha, um batom seco. Todos esperando eventual uso. E ri da crença nos cacarecos úteis. Então abri outra caixa menor ainda. Encontrei cacarecos tão ínfimos ali dentro que senti carinho por mim. Miçangas de uma pulseira arrebentada, um pedregulho, uma estrelinha de plástico. Todos eles sem uso. E chorei de carinho pelos cacarecos inúteis. Era tão inexplicável guardá-los que senti saudades de mim. Saudade da época em que guardar cacarecos era natural. Saudade da doce inocência de quem nunca passou por grandes perdas.

A ARTE DA PERDA

Vaneska M. Depois de algum tempo de vida, a vida é de perdimentos. Assim fui alertada, quando ainda não era tempo de perder. A tantas coisas o perder é inerente, que perdê-las nem chega mesmo a ser um grande infortúnio. A arte da perda não é difícil de dominar. Perde-se algo a cada dia. Perdi cinco amores eternos. Tempo demais em discussões ordinárias. Uma camiseta preta; vinte e sete guarda-chuvas; duzentos e trinta e três pés de meia, algumas dúzias de brincos. Perdi as chaves de casas que também perdi. Perdi a conta das coisas que perdi, mas coisas são só coisas. Só servem pra tropeçar, ouvi no rádio. A esperança eu perdi uma vez. Avós, tios, vizinhos. Amigos cedo demais. Amigos insepultos. Perdi convívios fundamentais. Perdi contos, histórias, poemas, embalando gente que também perdi. Perdi metade da minha gentileza. Humor e banalidades. Perdi distâncias perto de mim. Duas bicicletas e a coragem de bicicletear. Perdi pudores, recatos, medidas. Perdi o medo do calendário que min...

VOO BÁSICO

Maria Júlia Para saltar, eu tinha que levantar a asa delta, e correr para o cume. O céu era de puro anil. Não havia desculpas para voltar atrás. A não ser a velha insegurança. A cadeia de maus pensamentos começou, partiam do cérebro e se alastravam pelo corpo adentro. Uma dorzinha ansiosa se instalou no estômago e percebi que a calma que procurava sentir era pura imposição. Tentei respirar fundo, não deu certo. A cada inspiração vinha a expiração, apressada e irregular. Ah, a vida! Para que me comprometia com o desconhecido? Para que inventava situações complicadas? Para que procurava desafios o tempo todo, me envolvendo em bravatas que não faziam parte do meu feitio? Após a breve aula teórica e o treinamento sobre os procedimentos, a dor no estômago se fez acompanhar de uma taquicardia ameaçadora. Minha garganta estava ficando seca, as mãos, frias e trêmulas. O instrutor fez uma inspeção no equipamento, estava tudo certo: asa, alça, conexões. O único senão era eu, indeciso e...

DONA ROSALVA

Eliana Gesteira Era uma mulher baixa, gordinha e também muito ágil. Seu nome surge de um mundo longínquo, onde havia muitas tarefas a cumprir e também horários rígidos para rotinas como comer, tomar banho e dormir. Da lembrança surgida, tento dar um desconto aos traumas que se fixaram em mim como uma tatuagem da qual só comecei a aceitar à medida que os anos se distanciavam e a marca se tornava indelével. Falo de minha professora do primário, Dona Rosalva. Naquele tempo de castigos, reprimendas e decorebas, Dona Rosalva era soberana. Sua didática consistia nas leituras silenciosas, na tabuada mil vezes repetida e na conjugação de verbos cantada em uníssono na sala. Se por descuido algum aluno ousasse desafiar sua autoridade, era “convidado” a ficar com a cara colada no quadro negro ou a andar sozinho de um lado para outro repetindo trechos da lição perdida. Ao final da manhã de aula, a nossa saída se condicionava à resposta correta da arguição diária sobre multiplicações ou v...

MEU AMIGO DE TOURO

Vaneska M. A depender da boa vontade dos astros, jamais deveríamos ter nos aproximado: meu amigo de elemento terra tem os dois pés bem fincados nela. Eu, bicho doido correndo sem rumo. Metade gente, metade cavalo. Metade desespero, metade aflição. Metade gargalhada, metade dramalhão. Metade incêndio e a outra também. Como posso explicar o tanto que gosto dele? Talvez por tudo que me falte. Porque ele seja sábio, prático, resolutivo. Porque me segure na terra quando me disperso no ar. Talvez porque eu goste quando ele sorri. Talvez porque longe dele estou sempre um pouco sozinha. Meu amigo de touro é todo ética. Respeita as mina. Entende as mina. As mais sacanas, as presumidas santas e as putas assumidas. Gosta delas. Ele só vê gente. Um Bukowski sem medo de ser decente. Ele não fura fila. Não sonega imposto. Não explora o trabalho de ninguém. Não paga propina. Não quer levar vantagem. Cumpre as leis de trânsito. Não recebe troco superfaturado. Ele não dá jeitinho. ...

POEMINHA SOBRE A AUTOESTIMA DA MULHER BRASILEIRA (OU UM PEDIDO DE DESCULPAS POR EXISTIR)

Julia V. Para minha tia Nádia Sou macumbeira, converso com entidade, venero estátuas, sigo conselhos de pessoas inspiradas por espíritos. Mas meu coração é bom. Sou feminista, pela legalização do aborto. Esquerdista, pelos direitos dos pobres, dos excluídos, das minorias, de toda aquela gente que você acha chata e que atrapalha o teu sono, gosto é delas. Pode acreditar quando digo: minha alma é boa. Sou separada, não tenho marido, faço sexo - quando faço - é só por prazer, porque amar (e ser amada) está difícil. E nem venha me dizer que é porque não sou bonita o suficiente para "prender" um homem, já ouvi muito isso, cansei, mude a playlist. A verdade é a seguinte: apesar de tudo isso, sigo sendo uma pessoa de coração e alma boa.

TIPOS DA MINHA VIDA DOMÉSTICA

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Maria Júlia Saskia era alta, forte, loura, de cabelos cacheados, olhos azuis pálidos e arregalados. Sentada ali no meu sofá ao lado do marido, aparentava timidez e falta de traquejo. Parecia um tipo saído dos quadros de antigamente, mais precisamente, a Imperatriz Leopoldina. Após uma sessão de chá com biscoitos e as perguntas usuais, resolvemos contratá-la como “ajudante”, a palavra aqui usada para as domésticas. Combinamos que ela viria umas horinhas por semana limpar o apartamento e cuidar do meu filho. O meu parco holandês não contribuía para uma comunicação espontânea. Eu não sabia lidar direito com ela, estava me iniciando nos estranhos rituais de outra cultura. Saskia ia e vinha, trabalhava bem, sempre calada e séria, não queria muito contato comigo. De repente, avisou que não queria mais continuar lá em casa. O ambiente não era aconchegante e ela se frustrava com a preferência que meu filho claramente demonstrava ter por mim. Sentia-se simplesmente rejeitada. Foi a...