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UM SONHO DE VIAGEM

Elaine Morais Da janela do avião as nuvens pareciam de algodão doce. Lá embaixo o Atlântico azul marinho, calmo. Quebrei o vidro e sai voando, a curiosidade tomou conta e decidiu conferir se a paisagem era verdadeira. De dentro do avião parecia um filme, uma tela de tv. Uma vez lá fora via o avião a direita, à esquerda o azul e branco, vasto. Mergulhei no mar de nuvens, primeiro tentando tocá-las e percebi que se desmanchavam ao toque. Assim como passar as mãos pelo vapor, só que frio. Embaixo de mim havia uma nuvem que parecia espessa, como uma gaivota planeei até ela e pousei. Ela me sustentou então me deitei. Depois rolei, da direita pra esquerda até sua borda, e de volta, várias vezes até ficar tonta. Dei cambalhotas, fiz castelos de nuvem, me enterrei nela. Senti sede então juntei uma bola de nuvem nas mãos que fechei como uma concha até ela se derreter e a bebi. Cansada aprontei um travesseiro e um cobertor de nuvem e dormi. Foi um sono calmo, acordei em meio às estrelas que b...

VIAJANDO COM ALADIM

Maria Júlia Naquela noite, depois de eu ter passado um pano de flanela para limpá-la, a lâmpada que eu havia comprado em um modesto antiquário naquela aldeia remota da misteriosa região da Capadócia, começou a esquentar. Do seu bico saía uma fumacinha suspeita. Entrei em ligeiro pânico mas na minha pousada situada numa rocha não tinha mais ninguém na recepção, e eu não sabia o número do telefone do corpo de bombeiros local.  Abri a janela e a porta do quarto e gritei. Usei a palavra SOCORRO nas línguas que tinha aprendido na escola, até em uma já extinta, mas ninguém veio em meu auxílio. Pensei em jogar um casaco por cima da camisola e correr para a rua, mas não ousei. A escuridão era completa, só uma minguada lua ousava brilhar no céu. As estradas eram de chão batido, a região, repleta de cidades subterrâneas; a pousada ficava ao lado de um antigo caravan seray , ou seja, os antigos abrigos das caravanas que traziam do extremo oriente os diversos produtos e as exótic...

FINAL DE SEMANA

Eliana Gesteira Saí distraída pela rua vestindo um vestido verde esmaecido como aquele dia de tempo ruim. Queria ver agitação, mas o céu pesado e cor de chumbo trouxe a paz de ruas vazias. Da multidão, que normalmente descia em direção à praça nas manhãs de domingos, restaram vendedores desconsolados.  Para mim o dia estava perfeito, mas um chuvisco começou a cair e tive que procurar abrigo, praguejando por sair desprevenida. Cruzei guarda-chuvas apressados e me protegi embaixo de uma marquise. Em dez minutos estava de volta à rua. No caminho olhei vitrines. Diante do espelho de uma delas vi olhos famintos. Sem pudor, chorei. Queria mesmo era ter meus vinte anos de volta, ser senhora de mim sem ser e vaguear entre desejos e conquistas banais. A vida, no entanto, me reservou o menu de sempre - rugas, dores e solidão. Encontrei um conhecido, ele me falou algo e eu respondi “Sei não”. Uma música suave chegou de um apartamento uns dois andares acima e eu ali, sem sa...

ALGUMAS REFLEXÕES POÉTICAS

Angela Fleury  Hoje sou assim, amanhã já não mais. Sinto, mas já não sinto mais, gosto e desgosto, quero e já não quero mais! Silenciosamente pensamentos me confundem incessantemente, minhas próprias atitudes me surpreendem, convivo com conflitos intermináveis, ora é assim, ora é assado. Verdadeiros e heroicos combates entre domínios opostos. A vida, afirma sabiamente o poeta, existe através de contradições, através de uma constante tensão. Afaste-se para que possa se aproximar, mova-se para o oposto, para então, poder retornar. A vida persiste através de um movimento constante, qualquer coisa fixa e estabelecida está morta, estar vivo é mover-se entre os opostos, tudo está crescendo, movendo-se, transformando-se, num eterno devir.  Se observarmos a vida, a nossa volta, veremos que há contradições em todo lugar e talvez não haja nada de errado na contradição, ela às vezes pode parecer insuportável porque vai de encontro à nossa mente lógica e racional, mas...

OS CACARECOS

Elaine Morais Hoje por força do destino abri uma caixa de cacarecos. Encontrei cacarecos tão ridículos ali dentro que achei graça de mim. O brinco esquerdo de um par perdido, tampões de orelha, um batom seco. Todos esperando eventual uso. E ri da crença nos cacarecos úteis. Então abri outra caixa menor ainda. Encontrei cacarecos tão ínfimos ali dentro que senti carinho por mim. Miçangas de uma pulseira arrebentada, um pedregulho, uma estrelinha de plástico. Todos eles sem uso. E chorei de carinho pelos cacarecos inúteis. Era tão inexplicável guardá-los que senti saudades de mim. Saudade da época em que guardar cacarecos era natural. Saudade da doce inocência de quem nunca passou por grandes perdas.

A ARTE DA PERDA

Vaneska M. Depois de algum tempo de vida, a vida é de perdimentos. Assim fui alertada, quando ainda não era tempo de perder. A tantas coisas o perder é inerente, que perdê-las nem chega mesmo a ser um grande infortúnio. A arte da perda não é difícil de dominar. Perde-se algo a cada dia. Perdi cinco amores eternos. Tempo demais em discussões ordinárias. Uma camiseta preta; vinte e sete guarda-chuvas; duzentos e trinta e três pés de meia, algumas dúzias de brincos. Perdi as chaves de casas que também perdi. Perdi a conta das coisas que perdi, mas coisas são só coisas. Só servem pra tropeçar, ouvi no rádio. A esperança eu perdi uma vez. Avós, tios, vizinhos. Amigos cedo demais. Amigos insepultos. Perdi convívios fundamentais. Perdi contos, histórias, poemas, embalando gente que também perdi. Perdi metade da minha gentileza. Humor e banalidades. Perdi distâncias perto de mim. Duas bicicletas e a coragem de bicicletear. Perdi pudores, recatos, medidas. Perdi o medo do calendário que min...

VOO BÁSICO

Maria Júlia Para saltar, eu tinha que levantar a asa delta, e correr para o cume. O céu era de puro anil. Não havia desculpas para voltar atrás. A não ser a velha insegurança. A cadeia de maus pensamentos começou, partiam do cérebro e se alastravam pelo corpo adentro. Uma dorzinha ansiosa se instalou no estômago e percebi que a calma que procurava sentir era pura imposição. Tentei respirar fundo, não deu certo. A cada inspiração vinha a expiração, apressada e irregular. Ah, a vida! Para que me comprometia com o desconhecido? Para que inventava situações complicadas? Para que procurava desafios o tempo todo, me envolvendo em bravatas que não faziam parte do meu feitio? Após a breve aula teórica e o treinamento sobre os procedimentos, a dor no estômago se fez acompanhar de uma taquicardia ameaçadora. Minha garganta estava ficando seca, as mãos, frias e trêmulas. O instrutor fez uma inspeção no equipamento, estava tudo certo: asa, alça, conexões. O único senão era eu, indeciso e...