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QUO VADIS?

Jurandir  Eram as duas horas da manhã e eu ia caminhando por Waikiki, em direção ao hotel, quando vi esse personagem em plena rua fazendo gestos que mais pareciam uma dança inventada e coreografada especialmente para ele. Era como se estivesse escutando música celestial mas definitivamente não levava fones de ouvido. O mais curioso era como estava vestido. Descalço, usava um pano estampado muito colorido enrolado no corpo e atado com nós, como se fosse uma longa túnica. Tinha o cabelo castanho comprido, desgrenhado e uma barba não muito espessa. Parecia como teletransportado do filme Godspell... Umas mulheres negras, bastante gordas, sentadas do outro lado da rua começaram a rir descaradamente e a gritar elevando os braços de forma jocosa: Aleluia!! Aleluia!!!. Ele parou por um segundo, respondeu com um sorriso e seguiu em sua coreografia. Já nesse momento eu havia decidido segui-lo pois a minha curiosidade era grande. Minha percepção dizia que ele não era nem louco...

UMA VIAGEM DE TREM

Eliana Gesteira O trem passou sem parar por uma estação vazia. É noite e todos dormem dentro do vagão, menos o passageiro que anda devagar pelo corredor e que se segura cada vez que um solavanco o joga de um lado para outro. A luz repentina que veio de fora destacou na escurão a silhueta daquele homem e tornou visível por uma fração de segundos o prateado dos cabelos ralos, o azul lustroso do terno de corte impecável e o brilho dos fechos dourados de sua maleta de couro. São três e meia da manhã e o senhor de terno elegante não parece ter sono ou vontade de dormir. No exterior à composição ferroviária, além do negrume da noite, uma bruma espessa encobre a paisagem. Somente a memória de viagens anteriores, onde era possível ver campos verdes e casas solitárias com mulheres pendurando roupas ao sol, traz um vestígio de alegria aos olhos cansados do homem. A lembrança de dias ensolarados devolve também um pouco de calor ao luxuoso vagão, cujo ambiente altamente refrigerado pare...

CHEGAR E PARTIR

Vaneska M. Muito mais em razão de minha inabilidade social e certa ranzinzice, estive longe das redes sociais por longos anos. Foi atendendo à intimação de um grupo de escrevinhadores, que pela primeira vez embarquei nessa viagem. Não tenho mais que cinco pessoas que realmente conheço conectadas através da rede. Entretanto, já nas primeiras estações, percebi que o movimento dessas poucas pessoas gerava uma infinidade de inter-relações e múltiplas informações. Uma imensidão de passageiros circulando freneticamente pelos vagões que seguem sem trilhos. Através do recém-descoberto recurso seguir , um monte de gente interessante foi embarcando no comboio. Minha primeira reflexão de viagem foi: dá pra editar a vida na rede social. Então, você pode cair na falácia de que o mundo é um lugar menos desagradável. Isso, claro, se você não ousar ler os comentários nas postagens. Bem, vamos às minhas notas de bordo. As redes sociais têm uma gramática e vocabulários próprios. Se ...

A VOLTA

Luiza Monteiro Outro dia voltei. Queria rever in loco o que me fora tão presente por dias, semanas e anos.  Não sei bem o que buscava. Mas, havia uma ânsia de recompor o cenário da minha infância. A retina em sua memória redesenhava os detalhes das paredes, dos quadros, até as ilusórias silhuetas de montanhas, prédios e animais, que eu, criança, acreditara ver, relutando contra o sono, e que nada mais eram que linhas da madeira na porta do meu quarto. E lá estava eu: pedindo informação aos porteiros enquanto a mente, esta, se deslocava... no tempo. Minha casa – um apartamento na Rua Xavier de Toledo - no que fora um elegante canto do centro da capital paulista, estava abandonada, num prédio que mostrava uma pujança degradada como todo o entorno. Com o mote “São Paulo não pode parar”, o centro se deslocava para outro ponto e mais outro, deixando um rastro de construções mancas e manchadas pelo acelerado desprezo urbano.  A chave! Não tinham a chave? ...

DHARAMSALA

Angela Fleury A primeira impressão foi de deslumbramento. Eu havia imaginado uma coisa e tudo estava indo completamente além do imaginável. Hesitei entre tentar entender o que estava acontecendo ou me entregar e admitir a impossibilidade de uma compreensão daquela experiência. Sons de violino e piano seriam as perfeitas trilhas musicais de fundo daquela paisagem, tal era a grandiosidade de sua beleza. E eu os ouvia! Estaria indo encontrar os deuses? Ou estaria indo ao encontro das estrelas? Era meu primeiro contato com o teto do mundo, o Himalaia, onde muitos acreditam que os deuses e os mortais se encontram. Era um lugar de muita sabedoria e isto estava bem evidente na beleza de sua natureza branca e na profundidade de seus vales verdes e vermelhos. Quando todos gritaram, foi como se eu tivesse acordado de um sonho. O ônibus que nos levava montanha acima, apinhada de gente e de carga tinha derrapado no gelo fino e ali não tínhamos mesmo espaço de manobra. Voltei à realida...

UM SONHO DE VIAGEM

Elaine Morais Da janela do avião as nuvens pareciam de algodão doce. Lá embaixo o Atlântico azul marinho, calmo. Quebrei o vidro e sai voando, a curiosidade tomou conta e decidiu conferir se a paisagem era verdadeira. De dentro do avião parecia um filme, uma tela de tv. Uma vez lá fora via o avião a direita, à esquerda o azul e branco, vasto. Mergulhei no mar de nuvens, primeiro tentando tocá-las e percebi que se desmanchavam ao toque. Assim como passar as mãos pelo vapor, só que frio. Embaixo de mim havia uma nuvem que parecia espessa, como uma gaivota planeei até ela e pousei. Ela me sustentou então me deitei. Depois rolei, da direita pra esquerda até sua borda, e de volta, várias vezes até ficar tonta. Dei cambalhotas, fiz castelos de nuvem, me enterrei nela. Senti sede então juntei uma bola de nuvem nas mãos que fechei como uma concha até ela se derreter e a bebi. Cansada aprontei um travesseiro e um cobertor de nuvem e dormi. Foi um sono calmo, acordei em meio às estrelas que b...

VIAJANDO COM ALADIM

Maria Júlia Naquela noite, depois de eu ter passado um pano de flanela para limpá-la, a lâmpada que eu havia comprado em um modesto antiquário naquela aldeia remota da misteriosa região da Capadócia, começou a esquentar. Do seu bico saía uma fumacinha suspeita. Entrei em ligeiro pânico mas na minha pousada situada numa rocha não tinha mais ninguém na recepção, e eu não sabia o número do telefone do corpo de bombeiros local.  Abri a janela e a porta do quarto e gritei. Usei a palavra SOCORRO nas línguas que tinha aprendido na escola, até em uma já extinta, mas ninguém veio em meu auxílio. Pensei em jogar um casaco por cima da camisola e correr para a rua, mas não ousei. A escuridão era completa, só uma minguada lua ousava brilhar no céu. As estradas eram de chão batido, a região, repleta de cidades subterrâneas; a pousada ficava ao lado de um antigo caravan seray , ou seja, os antigos abrigos das caravanas que traziam do extremo oriente os diversos produtos e as exótic...