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MEL

Eliana Gesteira Reescrito por Carolina Geaquinto Estava à espreita no parapeito da janela desde o início da manhã, até que acabou indo se sentar na almofada jogada no fundo da sala. Lá não ficou nem cinco minutos. Andou daqui para ali, percorreu os vãos entre as cadeiras e, por fim, se agachou e colocou a cabeça no chão. Depois de um tempo, a barriga roncando, procurou alguma coisa para comer, mas como a comida não lhe apetecia, acabou indo dormir. Ao se deitar de lado, viu no assoalho um brinquedo mastigado sem muito entusiasmo e de repente resolveu brincar consigo mesma. Então coçou a orelha, se cheirou, mordeu um dedo, coçou a barriga e enfiou a cabeça entre as pernas, posição em que ficou por quase uma hora.  De repente percebeu um perfume no ar. Levantou num salto e correu em direção ao quarto, onde parou um instante antes de decidir se subia na cama ou mexia nos chinelos largados. Revirou primeiro um e em seguida o outro, mas desistiu e foi procurar as ...

GEOLOGIA

Carolina Geaquinto Reescrito por Maria Júlia Abreu de Souza  Minha irmã já foi palmeira. Eu, rocha. Mais precisamente, o morro Pão de Açúcar. A explicação é genealógica, meu pai se chama Pedro que vem do latim que veio do grego que veio possivelmente da palavra aramaica para pedra – Kepha. Minha mãe se chama Alvanir, um sinônimo de alvanel – aquele que constrói, pedreiro – que vem do árabe al-banná. Não sei por que minha irmã saiu palmeira, talvez por ser a mais alta e a mais morena da família.  Vindo da pedra e do pedreiro, eu, Carolina, uma versão latinizada do germânico karl – que significa homem forte e doce. E nascida no dia do padeiro, só posso ter sido o Pão de Açúcar.  Mas não é só. Também sei que já fui pedra, pois logo me reconheci entre os meus pares. O Frade e a Freira no Espírito Santo. As pedras de Stonehenge. O empilhamento de pedras do meu marido. Tadásana, a postura da montanha. Os concretos de Brasília. Todas fazem minhas veias vibrar....

DE PEDRA... DE AVE...

 Inez Helena Muniz Garcia Texto reescrito por Vaneska Mello Por ser de lá do interior, do mato, da pedra, da anta preta, Ita-peruna, algumas vezes, sou pedra que voa, em outras, ave com asas de pedra. Curso Normal, Científico, meados anos 70. Graduação: comecei na Geografia, fui para a Matemática,1980. Professora: matemática e física, 1983. Depois, Letras, Português/Inglês e suas literaturas,1984.  Vim tanta areia, andei.  Vida de bancária, desde 1975 - Rio Grande do Norte, Brasília, Minas Gerais, Niterói, Rio de Janeiro. Militâncias? Sindicais, político-partidárias, pastorais.  De pé, ó vitimas da fome!/De pé, famélicos da terra!/Da idéia a chama já consome/A crosta bruta que a soterra. Bem unidos façamos,/ Nesta luta final,/ Uma terra sem amos/  A Internacional. Especialização? Em Recursos Humanos. Minha vida é andar por esse país. Cursos de formação de alfabetizadores de jovens e adultos, BB Educar, Brasil adentro: PA, MA, PI, CE, RN, BA, DF, MG, RJ, SP, ...

GEOLOGIA

Carolina Geaquinto “Ciência cujo objeto é o estudo da origem, da formação e das sucessivas transformações  [...]” (Novo Dicionário Eletrônico Aurélio, 2004) Minha irmã já foi palmeira. Eu, rocha. Mais precisamente já fui o morro Pão de Açúcar. Não tenho dúvidas. A explicação é genealógica, meu pai se chama Pedro que, como se sabe, vem do latim que veio do grego que veio possivelmente da palavra aramaica para pedra – Kepha. Minha mãe se chama Alvanir, um sinônimo de alvanel – aquele que constrói, pedreiro – que vem do árabe al-banná. Até aí nenhum mistério, isso está no dicionário e na minha certidão de nascimento. Não sei por que minha irmã saiu palmeira, deve ser por isso que ela é a mais alta e a mais morena da família.  Vindo da pedra e do pedreiro, surgiu eu, Carolina. Reza a Wikipedia que Carolina é a versão latinizada do germânico karl – que significa homem forte – e lind – doce. E nascida no dia do padeiro, só posso ter sido o Pão de Açúcar. Feita de c...

MEL

Eliana Gesteira Estava à espreita no parapeito da janela desde o início da manhã, até que resignada acabou indo se sentar na almofada jogada no fundo da sala. Lá não ficou nem cinco minutos. Andou daqui para ali, percorreu os vãos entre as cadeiras e, por fim, se agachou e colocou a cabeça no chão para chorar. Depois de um tempo, a barriga roncando, procurou alguma coisa para comer, mas como a comida não lhe apetecia, acabou indo dormir. Ao se deitar de lado, viu no assoalho um brinquedo que foi mastigado sem muito entusiasmo, o que a levou a fazer uma coisa da qual muito gostava, que era brincar consigo mesma. Então coçou a orelha, se cheirou, mordeu um dedo, coçou a barriga e enfim enfiou a cabeça entre as pernas, posição em que ficou por quase uma hora, pois assim se sentia muito confortável.  De repente percebeu um perfume no ar. Levantou num salto e correu em direção ao quarto, onde parou um instante antes de decidir se subia na cama ou mexia nos chinelos...

HÁ UMA INTERDIÇÃO

Angela Fleury É preciso encarar o bicho, não vamos controlar tudo, não vai dar. É preciso encarar o desamparo, o terror e entender que a vida que nos cerca é terrível. É preciso encarar o bicho. Estamos desamparados dentro de um barco no meio de um mar revolto. E o pior, somos por dentro um mar revolto. Estamos perdidos e sozinhos numa noite escura. O chão se move, as paredes balançam e o teto está nervoso. Não há como fixar, estabilizar, estancar, voltar atrás e suspender a viagem. Não quero mais, mudei de ideia, não quero mais, não, não vai ter jeito, é preciso encarar o bicho.  Mas, tudo bem. Não é preciso mesmo dominar as coisas da vida, não é preciso voar até Júpiter, roubar os anéis de Saturno, descobrir outras galáxias, saber de onde viemos e para onde vamos, não é preciso viver 200 anos, desvendar a vida após a morte, ir e voltar pra contar, descobrir as manhas do cosmo, não, não é possível. Não temos como negar, há uma interdição.  Há um limite a partir ...

DARLENE

Victoria Wilson Não sei quando foi que me embruteci. É sábado de manhã. Lavo minhas roupas íntimas no tanque. E é isso que me dá o sentido da vida. Foi sempre assim, desde que me casei. Toda vez que acontecia algo importante ou o tédio tomava conta de mim, ia pro tanque e lá lavava roupas, sonhos e talvez mágoas. Mágoas, não. Hoje sei que eram raivas, muita raiva, ódio, às vezes. Um rancor enorme, sem fim. Logo eu? Tão meiga e cordata? Como poderia guardar tanto rancor assim? Tudo começou naquele dia. Era um verão escaldante, meus pés inchados de tanto andar, carregando peso. Aliás, tarefa à qual fui me submetendo no decorrer dos anos. Carregar peso pra cima e pra baixo. Isso me aliviava de certa forma, de algo desconhecido para mim até então. Só fui saber mais tarde, muito mais tarde. Carregava peso pelas ruas, então, a pé. Sequer pegava um ônibus ou táxi. Táxi, então, nem pensar? Como gastar dinheiro com táxi? Várias sacolas penduradas pelos braços, antebraço; as marcas vermelhas, ro...