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ABSINTO - Um autoengano Apocalíptico

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Maria Júlia Abreu de Souza (Mini- conto verídico que me foi relatado pela vítima, ou seja, a “autoenganada”).  Tudo começou no mês de abril do ano de 1986 quando ela entrou em casa e deparou com o marido, aos prantos, em frente à televisão. -Um reator nuclear de Chernobil explodiu! Você leu? -Sim, mas também li que a irradiação não deve chegar até aqui! -E daí? Em Chernobil, Ucrânia, mora Tanya.  Esclareceu: Tanya, com ipsilone, uma espiã do KGB, fora seu primeiro- ou segundo - grande amor. Conheceram-se em Moscou, paixão fulminante. É, ele tinha o hábito de se apaixonar por forasteiras... -Sim? E isso aconteceu na fase do primeiro ou do segundo James Bond? Ofendido, ele ficou calado durante dias. Passou semanas fazendo Cooper, bebendo litros de água mineral, clinicando. Épocas desditosas. O marido em crise, a filha na puberdade. Novo país, novo empregador, inúmeras exigências. Ela passou a ler e a refletir muito.  Uma tarde, log...

O BRILHO DA ROSA

Jurandir de Oliveira Foi nosso grande poeta Vinicius de Morais quem melhor definiu o que é um auto engano quando criou aquela famosa frase, carregada de cínico pragmatismo: "Que o amor seja eterno enquanto dure"! Isto porque a única maneira de viver um amor é vivendo-o intensamente, sem pensar que ele pode terminar ao virarmos a primeira esquina. Mas quase nunca perdemos a noção total da realidade, apenas nos deixamos embriagar por uma doce ilusão que, ao final de contas, faz bem para a pele e para a alma. Deliberadamente nos auto enganamos.  Recentemente, quando indaguei sobre a tal mulher que, segundo uns amigos, já havia morrido, me contaram uma história. -Rosa? Ah...Rosa era super legal. Pena que você não a conheceu! Era dessas mulheres alegres que chegam à terceira idade cheias de juventude, animadas, festeiras. Conheceu um rapaz que era bem mais jovem que ela. Os dois pareciam feitos um para o outro, todos percebiam a adoração de Antônio quando estavam junt...

MOSCOU -VILA ISABEL: LINHA DIRETA

Texto de Maria Júlia, reescrito por Eliana Gesteira Na Clínica aqui perto de casa, sou atendida pelo doutor Benjamin, um velhinho de cabelos fartos, olhos azuis, sorriso jovial e conversa fácil: - Não, não sou alemão, qual é? Sou judeu russo, cheguei no Rio em 1932 aos seis anos de idade, de Moscou direto para Vila Isabel. Terça de Carnaval. Posso afirmar que o samba me alfabetizou. Entre uma aula e outra, uma namorada e outra, um problema e outro, meu consolo era Noel Rosas. Quando a vida não estava sopa, eu perguntava: “com que roupa?” - É mesmo? - Agora canto no Bipbip, o boteco cult do Posto 5, conhece? Meu ídolo é Noel. Foi ele, homem branco, classe média, que trouxe um refinamento para a música popular, que fez o pessoal aceitar o ritmo tocado pelos malandros da Lapa. Vila Isabel anos 30, terça carnavalesca. Fico pensando nos pais do médico desembarcando no caos e calor da praça Mauá sob o ritmo de Taí. Lá, Stalin. Início da coletivização, revoltas camponesa...

HÁ UMA INTERDIÇÃO

Angela Fleury, reescrito por Inez Garcia É preciso encarar o bicho, não vamos controlar tudo, não vai dar. É preciso encarar o desamparo, o terror e entender que a vida que nos cerca é terrível. É preciso encarar o bicho. Estamos desamparados dentro de um barco no meio de um mar revolto. E o pior, somos por dentro um mar revolto. Não há como fixar, estabilizar, estancar, voltar atrás e suspender a viagem. Mas, tudo bem. Não é preciso mesmo dominar as coisas da vida, não é preciso voar até Júpiter, roubar os anéis de Saturno, descobrir outras galáxias, saber de onde viemos e para onde vamos [...] Não temos como negar, há uma interdição.  Não tem como ir além, está escuro, bloqueado, vedado, obstruído. Para, desiste. Vamos ficar por aqui. Melhor será aceitar a grandeza da natureza, admitir a ocultação, admitir o escuro abismo que não iremos decifrar. Não temos como controlar, como dominar, não somos o centro do universo.  Não precisamos mais matar os rios, d...

ESSA ESTRANHA MANIA DE SER DOIS

Vaneska Mello, r eescrito por Angela Fleury Das coisas que nos ocupamos entre o nascer e o sucumbir sozinhos está o delírio pelo fim do exílio. Mãos dadas, vidas coladas, desejos, sonhos, simbiose de ideias e de pensamentos, ausência de segredos. Não vivo sem você, sem você nada faz sentido. Parece ser o que buscamos em matéria de afeto. Parece, até percebermos a ausência de nós mesmos na vida a dois que construímos. Sentir que somos dois nos dá a ilusão de que estamos a salvo do desabrigo da alma. Mãos atadas, vidas cerceadas, desejos, sonhos, ideais e pensamentos que não se sabe ao certo de quem são. Ausência de privacidade. De repente, a história de amor consumiu a identidade de dois seres antes completos. Ao faltar o outro, só se é metade de alguém, talvez ninguém. Não é regra geral dos afetos, há pessoas que os vivem de outra forma mais leve. Há indivíduos que conseguem enxergar no objeto de sua afeição, o que ele é - outro ser. Humano, falível, com seus encantos...

MEL

Eliana Gesteira Reescrito por Carolina Geaquinto Estava à espreita no parapeito da janela desde o início da manhã, até que acabou indo se sentar na almofada jogada no fundo da sala. Lá não ficou nem cinco minutos. Andou daqui para ali, percorreu os vãos entre as cadeiras e, por fim, se agachou e colocou a cabeça no chão. Depois de um tempo, a barriga roncando, procurou alguma coisa para comer, mas como a comida não lhe apetecia, acabou indo dormir. Ao se deitar de lado, viu no assoalho um brinquedo mastigado sem muito entusiasmo e de repente resolveu brincar consigo mesma. Então coçou a orelha, se cheirou, mordeu um dedo, coçou a barriga e enfiou a cabeça entre as pernas, posição em que ficou por quase uma hora.  De repente percebeu um perfume no ar. Levantou num salto e correu em direção ao quarto, onde parou um instante antes de decidir se subia na cama ou mexia nos chinelos largados. Revirou primeiro um e em seguida o outro, mas desistiu e foi procurar as ...

GEOLOGIA

Carolina Geaquinto Reescrito por Maria Júlia Abreu de Souza  Minha irmã já foi palmeira. Eu, rocha. Mais precisamente, o morro Pão de Açúcar. A explicação é genealógica, meu pai se chama Pedro que vem do latim que veio do grego que veio possivelmente da palavra aramaica para pedra – Kepha. Minha mãe se chama Alvanir, um sinônimo de alvanel – aquele que constrói, pedreiro – que vem do árabe al-banná. Não sei por que minha irmã saiu palmeira, talvez por ser a mais alta e a mais morena da família.  Vindo da pedra e do pedreiro, eu, Carolina, uma versão latinizada do germânico karl – que significa homem forte e doce. E nascida no dia do padeiro, só posso ter sido o Pão de Açúcar.  Mas não é só. Também sei que já fui pedra, pois logo me reconheci entre os meus pares. O Frade e a Freira no Espírito Santo. As pedras de Stonehenge. O empilhamento de pedras do meu marido. Tadásana, a postura da montanha. Os concretos de Brasília. Todas fazem minhas veias vibrar....